AP Photo/Ramon Espinosa
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Luto por Fidel no interior de Cuba atravessa a madrugada

Emoção pela morte do comandante da Revolução Cubana é quase unânime em Trinidad

Anna Carolina Papp Enviada especial a Trinidad, Cuba, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2016 | 12h29

Pela madrugada, muitos dos moradores da pequena Trinidad, a 300 quilômetros da capital cubana Havana, já souberam que acordariam sem o seu "comandante"  -- como chamam Fidel. Não foi o caso de José Rodriguez, de 71 anos. Com a televisão quebrada, ele só se inteirou dos acontecimentos pela manhã, ao sair à rua. "Quando ouvi, as lágrimas logo começaram a cair", conta ele. "Foi um grande homem que fez muito pelo nosso povo."

Na época da Revolução Cubana, em 1959, José, que veio de uma família de camponeses, viu seus quatro irmãos partirem para lutar na guerra, enquanto ele, com 14, trabalhava com a criação de animais. O trabalho, aliás, começou cedo: aos sete anos, em canaviais da região.

Para ele, com o novo regime, a vida das pessoas melhorou de forma significativa. "As pessoas na rua estão muito comovidas, pois ele deu a todos saúde e educação, o que antes era só para poucos, para os ricos." Dos quatro filhos de José, por exemplo, três foram à universidade e se tornaram médicos. "Fidel perdeu sua vida física, mas o seu legado vai continuar."

A conversa para no meio, pois chega o ônibus que José esperava, e ele segue seu caminho. Apesar da notícia, que muitos ouviram pelo rádio ou viram na televisão, os moradores de Trinidad seguiam sua rotina normalmente na manhã deste sábado, trabalhando, chamando turistas para restaurantes, oferecendo viagens em táxis de bicicleta e fazendo suas próprias atividades. Ao andar pelas ruas de pedra da pequena cidade histórica fundada no século XVI, com suas casinhas coloridas e igrejas de estilo colonial, não parecia que o maior líder na nação, que governara a ilha por mais de 50 anos, morrera naquela madrugada. A comoção da cidade, que se tornou patrimônio da humanidade em 1988, não é tangível num primeiro momento: não há grandes reuniões de pessoas ou tampouco atos de condolências.

Mas, ao se aproximar dos cubanos e perguntar sobre Fidel, nos bancos das praças, nas janelas e portas das casas, a emoção é quase unânime. Os olhos de muitos se enchem de lágrimas após poucos minutos. "Fidel foi como um pai, sempre lutou pelo bem de todos, por saúde e educação.

Também nos ensinou a ser solidários", diz Elba Ramirez Santos, de 64 anos. Ela, que mora em Havana e visita o pai em Trinidad, trabalhou por anos como contadora em uma empresa de construção do governo. Agora, aposentada, ganha 350 pesos cubanos por mês, o que atualmente equivale a pouco mais de R$ 50. Recebe também alguma ajuda das filhas: uma mora nos Estados Unidos e outra na Espanha. "As duas foram para a Universidade", conta ela, orgulhosa. "Uma é pintora e outra química."

A educação é o maior motivo de orgulho e uma das primeiras coisas que os cubanos dizem quando se pergunta de Fidel. "A primeira medida que ele fez foi alfabetizar o país, além de oferecer saúde e acabar com a discriminação racial e de gênero, pois hoje as mulheres podem ocupar grandes cargos, e antes não", diz Liudmila Gonzalez, de 37 anos, professora de teatro. "Minha educação inteira foi de graça, e é de graça para todos. Qualquer um pode estudar, e tudo por causa da Revolução", diz. Seu filho, de 19 anos, está estudando para ser professor. "A morte de Fidel é um golpe muito forte e doloroso. Era um homem de pensamento grande. Há pessoas que passam pelo mundo e iluminam mais do que outras, e ele certamente é uma dessas pessoas."

Luto nacional. Apesar da morte de Fidel Castro, os serviços e estabelecimentos de Trinidad estão funcionando normalmente. Mas, pelas próximas noites, a cidade estará mais sielnciosa. A famosa Casa de la Música, na Praça Maior, não terá seu tradicional show ao ar livre, onde turistas e cubanos dançam salsa por horas a fio. Tampouco haverá venda dos famosos mojitos cubanos ou de Camcháncara, coquetel típico de Trinidad, também à base de rum. Festas, música e bebidas estão suspensas por nove dias, para azar dos turistas que procuravam a típica diversão latina.

Segunda e terça-feira, quando serão expostas as cinzas de Fidel na Praça da Revolução, em Havana, ficarão disponíveis na Praça Maior, em Trinidad, livros de condolências, para que os cubanos possam escrever homenagens a Fidel, segundo informações do Partido Comunista da cidade.

Alguns moradores, porém, irão a Havana para participar das homenagens. Nas praças, diversos taxistas ofereciam viagens à capital, que duram cerca de cinco horas. "Se disponibilizarem transporte público, quero ir a Havana como uma forma de agradecer a Fidel", diz Giovani Duarte, de 32 anos. Ele trabalha de garçom em um hotel em Ancón, praia a 16 quilômetros de Trinidad, onde ganha 400 pesos cubanos por mês -- pouco mais de R$ 60, além das gorjetas. 

Com um filho de três anos, ele diz que o dinheiro é suficiente. "Não falta comida no fim do mês, para mim está bom. Ele foi um ótimo líder e fez muito pelos mais pobres", diz. Nem todos são condescentes com o regime. Os dissidentes, porém, não falam abertamente sobre o assunto. A reportagem, ao andar pelas ruas de Trinidad e conversar com diversos cubanos, encontrou alguns poucos que não estão alinhados com governo, por terem sido afetados de forma negativa pela revolução -- como com a perda de terras, por exemplo. Eles, porém, não quiseram conceder entrevistas.

 

 

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