Luz chega depois do celular a vilarejo

Poa, em Burkina Fasso, expõe desafio da ONU de reduzir miséria na África

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

05 de maio de 2008 | 00h00

Os seis mil habitantes de Poa, no interior de Burkina Fasso, comemoraram na semana passada a chegada da eletricidade ao vilarejo. "Agora vamos poder nos dedicar a outras coisas, e não somente a moer manualmente os grãos", resumiu Willi Aliset, de 35 anos. A luz, no entanto, não é o primeiro sinal de modernidade neste típico vilarejo africano. A região já conta com antenas de transmissão de sinal de telefones celulares há pelo menos cinco anos . Mas sem a energia não havia como manter os aparelhos ligados todo o tempo, o que obrigava seus donos a levá-los para cidades vizinhas para recarregar a bateria.Poa - situada a 200 quilômetros da capital, Uagadugu - faz parte do desafio imposto pela ONU de reduzir pela metade, até 2015, o número de miseráveis no continente africano. Mas com o atual ritmo dos programas sociais, as estimativas indicam que o continente precisará de mais 40 anos para atingir as metas.A expectativa de vida no interior do Burkina Fasso não passa de 47 anos, e a taxa de analfabetismo é superior a 80%. Para muitas cidades e vilarejos, a luz elétrica ainda é um sonho. Os 54 países da África consomem apenas 3% da energia mundial. O déficit é ainda maior se considerar que a África do Sul utiliza 25% de toda a energia do continente, onde vivem mais de 800 milhões de pessoas. Para reverter esse quadro, a ONU desistiu de levar linhas elétricas às regiões mais afastadas de Uagadugu, já que isso exigiria investimentos do governo, o que poderia levar anos. A solução foi instalar um motor a diesel em uma das casas do vilarejo de Poa. Com poucos litros do combustível, o equipamento - com 40 anos de uso e avaliado em US$ 2 mil - consegue funcionar por até cinco horas por dia, carregando baterias e gerando eletricidade. O programa será levado para outras 120 vilarejos de Burkina Fasso ainda este ano e para mais de 400 até 2010. Outra decisão da ONU foi a de dar o controle do uso do motor às mulheres da cidade, para garantir que a nova energia seja usada para toda a comunidade. "Nunca imaginei que eu poderia um dia se capaz de lidar com uma máquina", afirmou Willi, que lidera o comitê gestor do uso do gerador.O mesmo motor que gera eletricidade é usado para moer grãos. Assim, um trabalho que antes poderia levar até oito horas, hoje é feito em apenas 30 minutos. Na prática, o motor liberou as mulheres do trabalho manual para se dedicar a estudar ou trabalhar no pequeno comércio da cidade. A energia elétrica também possibilitará que escolas sejam abertas à noite, permitindo que os adultos sejam alfabetizados. TELEVISÃOPara as crianças, é a chance de finalmente assistir televisão. "Quero acompanhar os jogos do Manchester United", afirmou um garoto, que toda semana costumava viajar de bicicleta 20 quilômetros até uma cidade vizinha para assistir às partidas do time inglês. A ONU admite que não bolou uma estratégia para o caso de pane ou desgaste de alguma peça do gerador. Na cidade não há técnicos que sabem mexer no aparelho nem recursos financeiros para bancar um conserto ou a compra de um novo. Por enquanto, porém, o fascínio pela energia na cidade domina as mentes de todos no vilarejo. "Poa nunca mais será a mesma", afirmou Jean Zongo, prefeito do vilarejo, deixando claro que eventuais problemas serão resolvidos. "Não queremos que os estrangeiros nos dêem peixes. Queremos aprender a pescar. E a energia nos abre esse caminho que tanto esperávamos", acrescentou.

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