''Luz no fim do túnel parece distante''

Repórter relata cotidiano de perseguição política, tortura e miséria no Zimbábue, um país afundado na crise

Autora anônima*, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

Até onde o Zimbábue conseguirá afundar? A escassez crônica de alimentos, a hiperinflação, a epidemia de cólera e os sequestros de críticos do presidente, Robert Mugabe, fazem parte do cotidiano do cidadão comum do país, relatado neste artigo de uma jornalista de Harare. Ela escreve para a PBS?s Frontline World, que tem a ajuda do Centro Pulitzer. Seu nome foi omitido para preservar sua integridade.5 DE DEZEMBRO DE 2008Desaparecidos. Sou despertada pelo toque do telefone. Não é fácil dormir hoje em dia. Gostaria de desligar o celular durante a noite, mas e se o meu filho ligar? Sinto muito a sua falta, mas não posso colocá-lo em risco morando perto dele. Minha profissão fez de mim um alvo.Atendo o telefone. É uma colega, e a notícia é péssima. Jestina Mukoko, ativista do movimento de defesa dos direitos humanos, desapareceu. Foi tirada de sua casa não muito longe de Harare, dois dias antes. Seu filho adolescente estava presente quando os invasores armados a empurraram para um carro, descalça e ainda de pijama.Jestina, uma das poucas mulheres bem-sucedidas na imprensa deste país, foi um exemplo para mim quando eu estava na faculdade. Ela trabalhava para a única estação de TV do país, controlada pela estatal Zimbabwe Broadcasting Corporation, quando Mugabe endureceu ainda mais o regime. Ela deixou o emprego e ingressou em uma organização de defesa dos direitos humanos chamada Zimbabwe Peace Project (ZPP). Jestina e a ZPP, com toda a rede de voluntários secretos que fornecem informações sobre a violência política, têm um valor inestimável para o que sobrou da nossa imprensa independente.Os sequestros, como o dela, eram comuns no período que antecedeu as eleições de junho. Consciente de que seria derrotado em uma luta leal, Mugabe recorreu à violência. Pelo menos 86 integrantes do Movimento pela Mudança Democrática (MMD) foram assassinados, segundo o líder do partido, Morgan Tsvangirai. Suspeito que, na realidade, os números sejam muito mais elevados. Os ataques diminuíram em setembro, quando Mugabe e o MMD concluíram um acordo provisório. Mas logo ele voltou atrás, e o terror voltou.20 DE DEZEMBRO DE 2008A fila do pão de um bilhão de dólares. Recentemente, o governo lançou uma nota de 10 bilhões de dólares zimbabuanos, mas com a inflação em 89,7 sextilhões porcento, em breve mal dará para comprar um pão. Então, às 4 horas vou ao banco, onde acaba de ser depositado o meu salário de 100 bilhões. Serei a primeira a chegar, penso comigo mesma. Depois de retirar o meu dinheiro, correrei ao supermercado para comprar o que for possível achar antes que o dinheiro se desvalorize.Quando chego ao banco, já há gente esperando. O segurança me entrega uma senha: 105. Alguém comenta que o banco não tem dinheiro suficiente para atender a todos. Atualmente, há enorme escassez de tudo - até de papel higiênico.Às 17h45, chega a minha vez. Mas o banco permite que cada cliente saque apenas 10 bilhões. Corro para o supermercado e compro apenas um pão. De manhã, poderia ter comprado dois. Com medo de que uma das milhares de pessoas que morrem de fome peça meu pão, o embrulho em jornal velho.24 DE DEZEMBRO DE 2008Jestina reaparece. Corro para o tribunal, mas a audiência já começou, então espero do lado de fora. Quando as portas se abrem, Jestina sai escoltada. Caminha mancando, mas mantém a cabeça levantada. De baixo de uma peruca, seu rosto está inchado. Sua expressão altiva desapareceu, substituída por um olhar vazio e assustado. Suspeito que tenha sido torturada.O juiz ordena que ela seja examinada por um médico antes que o processo continue. Mas ela é levada às pressas - evidentemente não para um hospital, mas sim para a notória prisão de segurança máxima de Chikurubi. O mesmo governo que durante três semanas negou o seu sequestro, agora a leva para o tribunal e a acusa de fazer parte de uma conspiração para derrubar Mugabe.31 DE DEZEMBRO DE 2008Doença e desmentido. Em uma sombria véspera de ano-novo, penso no meu tio, que morreu no mês passado de cólera. Pouco depois de sua morte, participei de uma coletiva do governo sobre a doença que a Organização Mundial da Saúde calcula que tenha matado mais de 1.500 pessoas e infectado outras 30 mil desde agosto.O ministro da Informação, Sikhanyiso Ndlovu, definiu a epidemia como "um ataque racista calculado contra o Zimbábue pela antiga potência colonial (a Grã-Bretanha), que tem o apoio de seus aliados ocidentais para invadir o país". Parte de mim queria dar uma boa gargalhada, mas tenho medo de contrair a doença. Há mais de três meses não tenho água em casa. Como meus vizinhos, cavei um poço pouco profundo no quintal, mas nenhum de nós tem dinheiro para purificar a água.20 DE JANEIRO DE 2009Um dia de esperança. Os 20 dias depois do início do novo ano têm sido muito difíceis. Na semana passada, o Banco Central emitiu outra nota, no valor de 100 trilhões, para fazer frente à inflação. O número de vítimas da cólera se aproxima dos 3 mil. Jestina continua na prisão. Entretanto, hoje é um dia de esperança: para muitos zimbabuanos, a posse de Barack Obama representa a promessa de um futuro melhor.Preparo-me para assistir à cerimônia no meu pequeno televisor. Dez minutos antes do início da posse, fico às escuras, pensando que o presidente Mugabe cortou a eletricidade porque teme que Obama peça para ele deixar o poder.Fico colada ao meu rádio de pilha, sintonizado numa estação independente que opera ilegalmente, na tentativa de ouvir Obama prestar o juramento. Quando ele acaba de discursar, comemoro feliz no escuro. Há muito tempo não temos nada para comemorar.27 DE JANEIRO DE 2009Mais más notícias. Pela primeira vez em seis meses, desfruto do prazer de uma ducha de água corrente quente. Estou na África do Sul para mais uma cúpula sobre o Zimbábue. Desta vez, a Comunidade para o Desenvolvimento do Sul da África tenta concluir um acordo de divisão de poder entre Mugabe e a oposição.A notícia não é boa. Nas primeiras horas da manhã, os negociadores aparecem com declarações conflitantes. Alguns dizem que o acordo foi concluído, outros falam o contrário. As divergências indicam que Mugabe continua no poder. Eu me pergunto, por quanto tempo conseguiremos suportar?30 DE JANEIRO DE 2009Ainda estamos à espera de ajuda. É tardezinha. Acabei de receber a notícia: a oposição concordou em fazer parte do governo de Mugabe, e Tsvangirai se tornará premiê. Da África do Sul, vejo a televisão, que mostra as pessoas reunidas à frente da sede do MMD, em Harare, comemorando o anúncio. A polícia está espantada demais para realizar prisões.Mas, assim como muitos zimbabuanos, não consigo comemorar. Mugabe continua poderoso neste novo governo, continua controlando os cofres públicos, os militares, a polícia e a imprensa. Suspiro desalentada pensando nos problemas que temos pela frente. A ONU calcula que 7 milhões de zimbabuanos - 80% da população - precisam de ajuda para comer. O número de vítimas da cólera cresceu ainda mais. Ontem, o governo anunciou que os cidadãos poderão fazer negócios em moeda estrangeira, abandonando efetivamente o dólar zimbabuano, desprovido de valor. Enquanto espero no saguão do aeroporto o voo que me levará de volta para casa, a luz no fim do túnel parece muito, muito distante.*A autora não foi identificada por motivos de segurança

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