Filippo Monteforte/AFP
Filippo Monteforte/AFP

Ultradireita italiana falha em tentativa de governar sozinha e esquerda volta ao poder

Movimento 5 Estrelas e Partido Democrático chegam a acordo para indicação de Giuseppe Conte como premiê

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 15h17
Atualizado 29 de agosto de 2019 | 15h20

ROMA - A esquerda italiana fechou nesta quarta-feira, 28, um acordo de coalizão com o Movimento 5 Estrelas (M5S), um partido antissistema, voltando ao poder e evitando novas eleições na Itália . A articulação foi um golpe contra o ultradireitista Matteo Salvini, um líder em ascensão que vinha dando as cartas na política italiana. 

O novo governo italiano ganhou forma pouco mais de uma semana após o colapso da coalizão anterior, desfeita por Salvini. O líder da Liga, partido de ultradireita, havia sido o mais votado nas eleições de 2018, cujo resultado determinou um Parlamento tripartido entre forças antagônicas: os nacionalistas (Liga), um grupo antissistema (M5S) e os esquerdistas (Partido Democrático). 

Sem maioria para governar sozinho, Salvini preferiu uma coalizão com Luigi Di Maio, do M5S. Como premiê, escolheram um burocrata, Giuseppe Conte, jurista e professor universitário, sem experiência política. 

Em maio, porém, nas eleições para o Parlamento Europeu, seu partido se tornou o mais popular da Itália, obtendo o dobro da votação do parceiro de coalizão. O resultado foi interpretado por Salvini como uma chance de desfazer o governo, convocar novas eleições e sair das urnas ainda mais poderoso. 

No início de agosto, Salvini apresentou uma moção de censura para derrubar Conte, que cedeu e pediu demissão na semana passada. O governo havia acabado e Salvini parecia ter vencido. Mas o que ele não esperava era um acordo entre esquerdistas e M5S, seus antigos parceiros. Hoje, os dois partidos anunciaram a nova coalizão, com Conte à frente do governo.

A reviravolta foi um alívio para o establishment europeu, após 14 meses de provocações, de uma dura retórica anti-imigração e do desrespeito às regras financeiras da União Europeia

Conte se reunirá na quinta-feira, 29, com o presidente italiano, Sergio Mattarella, que teve a tarefa de conduzir o país pela crise política. Mattarella requisitará formalmente que ele forme um novo governo – batizado de “Conte 2”.

O PD fez questão de afirmar que o novo mandato de Conte não tem relação com o anterior. “É um novo desafio”, disse Nicola Zingaretti, líder do PD. “É um ponto de inflexão e descontinuidade, com políticas mais justas, mais distributivas e mais verdes.”

A ideia de uma aliança entre PD e M5S foi costurada pelo ex-primeiro-ministro esquerdista Matteo Renzi. A nova coalizão, porém, não deixa de ser outro casamento de conveniência entre adversários. Os novos parceiros têm alguns projetos comuns, mas o acordo entre eles foi motivado por velhos sentimentos que movem a política italiana: vingança, oportunidade e interesses. 

Derrotado, Salvini reagiu. “Meu erro foi ter subestimado a articulação dos aliados de Renzi”, disse. “Para não enfrentar novas eleições, eles fariam qualquer coisa, até votar a favor de uma coalizão de governo entre o Mickey e o Pateta.”

O ex-premiê Silvio Berlusconi, líder do movimento Forza Italia, que perdeu muito apoio popular nos últimos anos, também criticou a aliança entre adversários. “É um governo fraco, nascido de manobras palacianas”, afirmou.

Se internamente parece instável, o novo governo italiano deve contar com apoio total de Bruxelas, que aposta em uma direção fiscal mais austera e responsável por parte de Conte. Nas últimas semanas, Salvini vinha pressionado por um corte de impostos para 2020 que deixaria o país ainda mais endividado. 

A política de imigração italiana também deve sofrer uma mudança radical. Salvini vinha constantemente proibindo que embarcações de resgate, conduzidas por ONGs humanitárias, desembarcassem na Itália imigrantes africanos resgatados do Mediterrâneo. 

A última crise envolveu o navio humanitário Open Arms, que ancorou na Ilha de Lampedusa com 107 imigrantes após 20 dias de espera. A embarcação Ocean Viking ficou 14 dias no mar, também aguardando autorização para atracar em portos italianos, até que a UE concordasse em distribuir os 365 refugiados que estavam a bordo. / NYT, AP, REUTERS, ANSA e AFP

 

 / NYT, REUTERS, ANSA e AFP

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