Miguel Gutiérrez/EFE
Miguel Gutiérrez/EFE

Má gestão de empresa venezuelana controlada por Guaidó desgasta oposição

Diretores da Monómeros na Colômbia têm sido acusados de denúncias de irregularidades e de buscar a falência para acabar com a empresa

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 20h36

CARACAS - Uma empresa venezuelana que fabrica fertilizantes na Colômbia, a Monómeros, converteu-se em um ponto de discórdia na política da Venezuela, com questionamentos aprofundando as divisões entre os adversários do presidente Nicolás Maduro e renovando as tensões entre Caracas e Bogotá.

O conselho de administração da Monómeros, filial da estatal Petroquímica de Venezuela (Pequiven), foi nomeado por Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana desde 2019, quando a Colômbia, os EUA e dezenas de outros o reconheceram como o presidente legítimo da Venezuela, rotulando Maduro de um ditador que fraudou sua reeleição em 2018.  Afirmando que a eleição foi justa, o presidente permanece no cargo, apesar das sanções dos EUA e da pressão diplomática internacional.

Na época, o opositor e aliados também assumiram a administração da Citgo, filial da petroleira estatal PDVSA nos Estados Unidos.  Dois anos depois, as autoridades colombianas intervieram na Monómeros diante das dificuldades de fluxo de caixa, levantando dúvidas sobre seu futuro. "Eles nos roubaram e sequestraram a empresa Monómeros, e ela está falida. Eles a quebraram!", disse Maduro na sexta-feira, em um ato transmitido pela TV.

Em 22 de setembro, a Monómeros pediu para se beneficiar de um programa de resgate de empresas criado na Colômbia em razão da pandemia. Fundada em 1967 e controlada pelo Estado desde 2007, a fabricante de fertilizantes e insumos para ração animal pediu ao governo colombiano três meses para apresentar um plano de renegociação de compromissos financeiros e entregas.

"Não é uma falência", afirmou a Monómeros, em comunicado, reportando US$ 8,3 milhões de lucro em 2020. "É simplesmente um processo rápido de negociação extrajudicial com os credores."

O pedido foi feito 16 dias depois que a Superintendência de Empresas da Colômbia submeteu a Monómeros ao "controle", uma medida de supervisão pela qual pode ordenar "medidas corretivas" diante de "situações críticas de ordem jurídica, contábil, administrativa e econômica".

“A Monómeros é e continuará sendo propriedade dos venezuelanos”, reagiu Guaidó, mas agradeceu “a proteção” dos ativos estatais bloqueados no exterior pelas sanções financeiras lideradas por Washington contra Maduro.

A Monómeros já foi posta sob "controle" em 2019. A supervisão "não substitui os acionistas", mas pode levar a "medidas mais drásticas como uma liquidação" se a situação da empresa não melhorar, explicou Rafael Wilches, especialista em Direito Societário da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá.

A empresa gera mais de 1,6 mil empregos e abastece cerca de 800 mil agricultores na Colômbia, disse um porta-voz da Monómeros à agência France Presse. Segundo sindicatos, ela domina 50% do mercado de sua área no país.

Os diretores da Monómeros têm sido acusados de denúncias de irregularidades e de buscar a falência para acabar com a empresa. O sindicato da companhia denunciou um contrato, cancelado após o escândalo, de transferência de 60% dos lucros a uma empresa privada panamenha, além de pagamentos por "consultorias" que considerou "desnecessárias".

Na terça-feira, Guaidó propôs "reestruturar" a diretoria da empresa, mas não houve acordo entre os opositores. 

As diferenças são públicas: o Primeiro Justiça (PJ), um dos principais partidos da oposição venezuelana, se distanciou do Vontade Popular (VP), de Guaidó e seu mentor, Leopoldo López. "Anunciamos nossa decisão de não participar mais dos espaços" relacionados a "ativos no exterior", disse o PJ em comunicado no dia 27 de setembro.

Julio Borges, do PJ, disse que a Monómeros foi administrada "com critérios absolutamente partidários", segundo criticou em entrevista a uma rádio de Miami. Borges é o "chanceler" de Guaidó.

A oposição já vinha apresentando divergências antes em questões centrais, como as eleições para governadores e prefeitos em 21 de novembro, nas quais decidiu interromper o boicote mantido contra as eleições presidenciais de 2018 e as parlamentares de 2020, descritas pelos opositores como fraudulentas. Unificar as candidaturas tem sido difícil e ainda há vozes que se recusam a ir às urnas.

Maduro instruiu seus delegados nas negociações com a oposição que ocorrem no México a exigir que a Monómeros volte ao controle da estatal Pequiven. Seus representantes denunciaram uma "operação de saque", que inclui a intervenção do Estado colombiano na Monómeros e a possibilidade, levantada em carta do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA, de que seja autorizada a venda de ações da Citgo em 2022 para pagar credores venezuelanos.

O ministro do Petróleo, Tareck El Aissami, anunciou que o governo tomaria "medidas legais" para "resgatar" as duas empresas. O Ministério Público abriu outra investigação criminal contra Guaidó, a 26ª. /AFP e Reuters 

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