TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Maconha de farmácias uruguaias é esnobada por quem pode pagar clubes

Erva que passou a ser vendida em drogarias é a alternativa barata para quem pretende evitar o narcotráfico, mas perde terreno entre os usuários que podem gastar até três vezes mais para se associar em cooperativas ou ter o próprio cultivo em casa

Murillo Ferrari, Enviado Especial / Montevidéu, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2017 | 18h30

MONTEVIDÉU - Após 15 anos na área de marketing de uma multinacional de tabaco, o uruguaio Joaquín Fonseca largou a profissão para ir em busca de outro sonho relacionado ao fumo. Fundou um clube para o cultivo cooperativo da maconha, uma das formas legais de produzir a droga de acordo com a lei de 2013. Quatro dias atrás, seu clube ganhou a “concorrência” das farmácias, que passaram a vender a erva a usuários com perfil econômico bem diferente.

Em agosto de 2014, Fonseca pediu demissão e, com 15 sócios, criou o Clube Cananico Sativa, que hoje ocupa grande parte de um prédio de arquitetura tradicional perto do turístico Parque Rodó, em Montevidéu. A lei uruguaia estabelece que os clubes só podem funcionar se tiverem de 15 a 45 pessoas. 

“Agora que nosso funcionamento está estabilizado fazemos as entregas mensais para os membros no máximo permitido pela lei (40 gramas por mês) e com a possibilidade de escolherem entre algumas das genéticas que cultivamos - em média, seis - a cada ciclo da planta”, disse Fonseca ao Estado na semana passada. Ele ressalta que nos primeiros meses o crescimento da empresa foi tão rápido que ele precisou aprender muito sobre o cultivo da erva.

Quando a droga passou a ser vendida em farmácias, entrou em vigor a terceira e última etapa da lei aprovada no governo de José “Pepe” Mujica. As outras duas, em funcionamento pleno desde 2014, são justamente o cultivo coletivo ou a plantação na residência, modalidade que tem feito alguns brasileiros se mudar e regularizar sua situação no país vizinho para viver com e da maconha. Cada usuário registrado no sistema do governo só pode optar por um dos três tipos de fonte de maconha. Quem é sócio de um clube não pode comprar nas farmácias ou cultivar em casa, por exemplo.

No clube dirigido por Fonseca, onde ficam a sala de secagem e o depósito do produto pronto para ser entregue aos sócios, o cheiro da erva é tão forte que pode ser sentido da calçada. Esse aroma é proporcional à potência do produto, que o cultivador estima ter entre 12% e 18% de THC, o princípio ativo da maconha, além de ser livre de canabidiol (que inibe efeitos psicoativos e está presente na variedade que o governo envia às farmácias).

“Essa produção que alcançamos, aliada a uma qualidade incomparável em relação à droga prensada vendida pelos traficantes (normalmente originária do Paraguai e misturada com produtos para baratear o custo de produção) fez o clube se desenvolver”, disse Fonseca. Ele explica que seu clube oferece apoio técnico a outras duas agremiações, ambas com mais de 30 membros cada.

Martin, um dos sócios do clube, explicou que escolheu esta modalidade para obter sua maconha de forma legal porque foi a que mais se encaixou na sua realidade. “Eu não tinha condições de plantar na minha casa e a venda nas farmácias, cujo início foi adiado muitas vezes, não me convencia. Então optei por um clube do qual tinha ouvido falar bem tanto do ponto de vista do cultivo quando da gestão”, disse.

De acordo com dados oficiais do Instituto de Regulação e Controle de Cannabis (Ircca), o Uruguai conta hoje com 63 clubes de cultivo de maconha legalizados. O órgão, no entanto, não divulga quantos membros cada organização possui. Considerando as regras de funcionamento, é possível afirmar que são no máximo 2.835 os que aderiram a essa forma de acesso à droga, o equivalente a 19% do total de registros.

Ser membro de uma destas organizações tem um custo elevado quando comparado com a droga disponível ilegalmente no país e também com a oferecida agora nas farmácias. Na maioria dos casos, é mais caro também do que ter a própria plantação em casa, a escolha de 45% dos registrados no Uruguai.

Em um país onde o salário mínimo é de 11.150 pesos (R$ 1.222) por mês, o custo para adquirir as 40 gramas de maconha em um clube pode chegar a 4.800 pesos (R$ 526), enquanto que o cultivo em casa é similar, em torno de 4.500 pesos (R$ 493) - mas sem considerar os gastos para adquirir equipamentos como lâmpadas e estufas.

Estas opções são três vezes mais caras que a última implementada, a venda em farmácias, opção de 36% dos registrados. Um residente do país que comprar a quantidade máxima da substância permitida por mês nas drogaria gastará cerca de 1.496 pesos (R$ 164), valor similar ou um pouco mais barato do que do mercado negro.

Um estudante de 19 anos que estava entre os compradores em uma das farmácias de Montevidéu na semana passada disse que a dificuldade de comprar o produto legalizado pode atrapalhar a adoção pelos consumidores, mas o baixo preço - segundo ele, quase metade do que pagou por quantidade equivalente em sua última compra ilegal - pode ter mais peso nesta balança.

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Igor Gadelha / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2017 | 18h35

No Brasil, são poucos os projetos parlamentares liberando a comercialização da maconha. No Congresso, há dois em tramitação: um do ex-deputado Eurico Junior (PV-RJ) e outro do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Em linhas gerais, as propostas regulamentam plantação, cultivo, colheita e comercialização da maconha e seus derivados, bem como a fiscalização desses processos.

Wyllys apresentou o projeto em março de 2014. Ele estabelece que a cannabis, nome científico da maconha, seus derivados e produtos deixam de integrar a lista de substâncias sujeitas a controle especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e passam a ter regras próprias. A proposta autoriza, em condições especiais, a produção e o comércio da maconha.

O projeto prevê que cada brasileiro possa plantar, cultivar e colher em casa seis plantas maduras e seis imaturas, desde que sejam destinadas ao consumo pessoal ou compartilhadas em domicílio, sem necessidade de registro, inspeção e fiscalização por parte do Ministério da Agricultura. Sobre o produto da plantação, estaria isento de fiscalização o limite de até 480 gramas por indivíduo por ano.

Quantidades acima disso deverão ser plantadas por clubes de “autocultivadores”, que precisam de autorização do Executivo. Segundo o projeto, cada clube poderá ter até 45 sócios e plantar até 12 plantas por sócio, totalizando máximo de 540, sendo metade delas madura e metade imatura. Esses clubes poderiam vender maconha no varejo respeitando o limite de 40 gramas mensais por pessoa.

O projeto de Wyllys tramita em conjunto com o de Eurico Junior. A proposta do ex-deputado autoriza plantação, cultivo, colheita e comercialização para fins de pesquisa científica, elaboração de produtos terapêuticos de uso medicinal e para fins recreativos não só da cannabis, mas de qualquer planta da qual possam ser extraídas substâncias que causem dependência física ou psíquica, desde que sigam regras específicas.

No caso da maconha, a proposta autoriza a plantação, cultivo e colheita em ambiente doméstico de cannabis, desde que destinada ao consumo individual ou coletivo dentro do lar. Considera-se cannabis psicoativa aquela cujo conteúdo de THC natural, principal substância psicoativa da planta, seja igual ou superior a 1% de seu volume. O projeto limita o plantio a seis plantas e o produto da plantação a 480 gramas por ano.

A proposta do deputado do PSOL estabelece que a venda de maconha cultivada para consumo pessoal dependerá de registro junto aos órgãos competentes. A venda não poderá ultrapassar 40 gramas por usuário por mês. Menores de 18 anos e pessoas incapazes não poderão comprar. O projeto estabelece que motoristas não poderão dirigir sob a influência da maconha.

Há ainda um terceiro projeto, do deputado Fábio Mitidieri (PSD-SE), que autoriza a comercialização de medicamentos que contenham “extratos, substratos ou partes” da cannabis ou derivados, desde que exista comprovação da eficácia terapêutica atestada por laudo médico. Pelas regras da Anvisa, hoje só podem ser comercializados remédios com concentração de até 30 mg/ml de canabidiol e THC. 

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Brasileiro ganha us$ 25 mil para ‘startup canábica’

Um dos brasileiros que foram viver no Uruguai só por causa da erva, gaúcho teve ajuda estatal para criar sensores que controlam as plantas à distância

Murillo Ferrari, Enviado Especial / Montevidéu, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2017 | 18h40

MONTEVIDÉU - O mercado dos jogos eletrônicos, em especial dos videogames, é um dos que está em expansão no Brasil e no mundo, e as carreiras relacionadas a ele têm atraído cada vez mais quem busca novas aventuras e salários atraentes, segundo consultorias especializadas em recrutamento pessoal.

Para o gaúcho Conrado Andrade, de 28 anos, no entanto, essa experiência serviu como ponte para criar seu mais ambicioso projeto. No ano passado, ele recebeu um financiamento de US$ 25 mil da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação (Anii) do Uruguai e a pré-venda está programada para ser lançada online em meados de agosto.

Trata-se de La Box, um conjunto de aparelhos eletrônicos e sensores instalado nas salas de cultivo e nos vasos de maconha. O equipamento permite que informações cruciais para o bom crescimento da planta, como luminosidade, temperatura e umidade sejam monitorados e os aparelhos eletrônicos sejam controlados em tempo real e à distância pelos cultivadores, que ainda podem armazenar dados para comparações futuras.

O protótipo dos aparelhos, que hoje se comunicam por tecnologia sem fio, começou a ser desenvolvido em 2010 por Andrade como uma ferramenta para fornecer dados para um simulador 3D de cultivo de maconha. No meio do caminho, as prioridades se inverteram depois de alta demanda por informações sobre o aparelho, exibido de forma experimental em uma competição dedicada à maconha na capital uruguaia, em 2014.

“Consegui um sócio, Matías Bazan (argentino de 27 anos) e levamos a ideia para a Sinergia, uma incubadora de projetos de tecnologia da América Latina, que viabilizou o dinheiro da Anii para o desenvolvimento do produto”, conta. “Hoje, La Box está pronto e só buscamos a verba para produção. Por questão de custos e em acordo com um investidor brasileiro que apoiou a ideia, devemos levar a produção para a Zona Franca de Manaus”, aponta o brasileiro, que espera entregar as primeiras unidades antes de fim do ano.

Andrade é parte de uma geração de brasileiros que se mudou para o país vizinho atraída pelas possibilidades abertas depois da legalização do cultivo da maconha. O consumo da droga já era permitido lá desde 1974.

Outro exemplo é o do também gaúcho Henrique Reichert, de 30 anos, que sempre teve a intenção de trabalhar com algo relacionado à erva, mas achava a ideia difícil de ser realizada em Novo Hamburgo, onde morava e estudava pedagogia. “Pouco depois da legalização da maconha no Uruguai, um amigo me convidou para visitar o país, onde ficamos por sete dias. Quando voltei ao Brasil, só fiquei mais duas semanas, o tempo que gastei para trancar meus estudos, vender meu carro e meus móveis. Depois, me mudei definitivamente para cá”, disse ao Estado.

Em Montevidéu, onde mora, Reichert criou o site euamaconhaeumacamera.com e um canal no YouTube com o mesmo nome. Nestas plataformas, ele se dedica a “quebrar mitos por meio de debates e informações”, segundo a descrição da página na web. Ele também produz conteúdo jornalístico para o site brasileiro Smoke Buddies, especializado em informações sobre maconha.

Os vídeos online são o que tem feito sua visibilidade no país crescer entre entusiastas da droga, especialmente os brasileiros, que pensam em seguir o mesmo caminho que ele e Andrade. “Tenho recebido uma média de 400 mensagens por semana e 90% delas são de pessoas que querem vir para cá e pedem ajuda”, explica. Ele disse que tenta responder a todos e oferecer assessoria, “tanto gratuita, quanto paga, se a pessoa quiser que eu faça os trâmites burocráticos para ela”.

Outra atividade à qual ele se dedica no Uruguai é o autocultivo da erva, mantendo em sua casa as seis plantas legalmente permitidas, que na última colheita, há menos de dois meses, lhe renderam praticamente os 480 gramas que ele pode produzir anualmente a um custo aproximado de 54.700 pesos (R$ 6 mil). 

Reichert diz que escolheu a opção por considerar o acesso aos clubes caro e a criação da própria organização burocrática. “Mas eu tinha uma ideia quando vim para que pretendo tirar do papel futuramente: formar um clube apenas com brasileiros radicados no país.”

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Lei veda compra por adolescentes, 9,4% dos usuários diários

Especialistas sugerem reforço em educação e criação de um ‘mercado cinza’, com a compra de droga legal por adultos

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2017 | 18h45

A primeira semana da venda regularizada de maconha no Uruguai começou com uma oferta ainda pequena diante do número total de usuários projetados pelo governo e com questionamentos sobre a qual fornecedor da droga recorrerão os menores de 18 anos. Adolescentes entre 15 e 18 anos correspondem por 9,4% dos usuários diários e 28,3% dos ocasionais, segundo pesquisa da Junta Nacional de Drogas divulgada este ano. Pela lei, eles não podem comprar a droga de maneira legal.

Especialistas indicam que para evitar que os menores recorram ao mercado negro é necessário ampliar a pedagogia sobre o consumo de drogas, que no médio e longo prazo faria com que os adolescentes recorressem a um mercado “cinza” em vez de negro: consumir a droga legal, com menos malefícios e sem financiar o mercado ilegal, mas comprada por maiores de idade.

“É difícil projetar como vai ser o acesso de adolescentes à maconha no mercado negro. O acesso continuará existindo. São necessárias campanhas de educação que privilegiem o consumo responsável em vez da proibição pura e simples”, diz Diego García-Devis, do Instituto Open Secrets, que defende a legalização das drogas. “A estigmatização do consumo, sobretudo para pessoas dessa idade, pode ser prejudicial.”

Para John Walsh, especialista em políticas para drogas do Washington Office on Latin America (Wola), qualquer regulação envolve risco porque os menores serão excluídos, mas ele ressalta que esses menores não serão punidos. “Para a maioria dos jovens, um ‘mercado cinza’, com acesso por meio de maiores de idade, seria preferível a comprar de traficantes”, disse.

Enquanto preparou a implementação da lei, o governo do presidente Tabaré Vázquez ampliou o combate ao tráfico de drogas. Em 2016, as apreensões de maconha aumentaram 70% na comparação com 2015, em uma tentativa de ampliar o combate à oferta ilegal. Mais de 1.700 bocas de fumo foram fechadas. A apreensão de drogas como um todo cresceu 400% em um ano.

O ex-diretor da Junta Nacional de Drogas do Uruguai, Milton Romani, diz que com os usuários já cadastrados estima-se que o narcotráfico perdeu 25% da clientela. “As apreensões de drogas têm sido recorde desde a implementação da lei”, afirma. Para Walsh, o sucesso da lei uruguaia depende da adesão ao sistema de venda em farmácias. “É o que pode realmente tirar clientes do mercado negro”, argumenta.

“Há que se ressaltar que o número de usuários é subdimensionado, porque as pessoas ainda são estigmatizadas por usar maconha. E uma campanha de conscientização será importante para tirar esse usuário que tem medo de ‘se assumir’ do mercado negro”, lembra García-Devis.

O baixo nível de THC da maconha disponível nas farmácias no Uruguai, alvo de reclamações de usuários, também tem sido tema de discussões. Enquanto o consumidor diário espera uma maconha mais forte, o Estado regula a produção da droga de modo a evitar danos ainda mais nocivos.

“Numa análise comparada com os EUA - e isso é uma opinião pessoal, não da ONG -, quando a iniciativa privada é responsável pela produção de maconha, observam-se níveis altíssimos de THC, comparados, por exemplo, com o Uruguai”, conclui García-Devis. “Uma regulação responsável evitaria isso.”

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