Steve Dipaola/Reuters
Steve Dipaola/Reuters

Como a maconha mudou o perfil do Dia de Ação de Graças nos EUA

Legalização da droga em vários Estados americanos altera relação de parentes em festas de fim de ano

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 08h00

WASHINGTON - Agora que o uso recreativo da maconha é legal em 11 Estados americanos, além da capital, Washington, e a maconha medicinal é permitida em 33 Estados, o Dia de Ação de Graças se tornou um grande feriado para os usuários da droga, que tem ajudado a aliviar tensões familiares.

A maconha se juntou ao álcool e às fofocas da família no reino dos antigos tabus que pais e filhos crescidos agora podem passar juntos, e a temporada de festas, que vai do Dia de Ação de Graças ao ano-novo, fornece uma chance de reunião de gerações.

Hoje, jovens adultos e seus pais compartilham um posicionamento descontraído em relação à droga: a maioria da nova geração acha que a maconha deve ser legalizada, segundo pesquisa do Pew Research Center.

A ideia de ficar drogado com as pessoas que antes podiam deixar você de castigo por causa disso ainda é esquisita. Quando a família de Lizzie Post se reúne para o Dia de Ação de Graças na casa de seus pais, na zona rural de Vermont, ela traz o recheio do peru, o feijão verde e a maconha.

Lizzie, que vive em um Estado onde é legal consumir maconha, gosta de receber parentes de fora do Estado com uma amostra da própria colheita – da mesma maneira que seu tio do Colorado traz garrafas de sua cerveja artesanal e sua prima da Califórnia chega com seu vinho pinot noir favorito. A casa dos pais de Lizzie é zona livre de erva e nem todos têm o mesmo hábito. Então, ela e um parente costumam dar um passeio após o jantar, voltando para a sobremesa com o apetite renovado. 

Maconha legal na meia-idade

Nos EUA, alguns pais estão retomando o uso recreativo depois de anos de abstinência na meia-idade e agradecem o fato de seus filhos estarem por perto para alertá-los sobre a potência da erva. Mas, outras vezes, são os filhos que não acompanham o ritmo.

Em várias conversas para este artigo, os millennials se disseram impressionados com a tolerância e o conhecimento dos pais em relação à maconha.  Um mapa dos EUA que indica o espectro da total proibição em vários tons de verde se assemelha à divisão política entre o azul, dos democratas, e o vermelho, dos republicanos. E, claro, a maconha é ilegal em nível federal, o que influencia atitudes e opiniões, independentemente de onde você mora. 

Como resultado, qualquer jantar de Ação de Graças em que os entusiastas da erva estejam à mesa também contará com os que são agnósticos ou contrários à maconha. Tias e tios conservadores podem ficar se perguntando por que todo mundo está tão alegre.

Melhoria na qualidade de vida

Durante a maior parte da vida, April, de 45 anos e mãe de dois filhos, recusou a erva com veemência. Quando criança, na década de 80, ela cresceu com ideias negativas sobre “maconheiros preguiçosos”. Ela falou sob a condição de que apenas seu primeiro nome fosse usado, porque mora em um Estado onde a maconha não é legal.

April sentia-se infeliz tomando doses pesadas de remédios para epilepsia e enxaqueca. Seu filho a convenceu a experimentar a maconha medicinal, à qual ela credita uma melhoria drástica na sua qualidade de vida.

Em uma festa de Halloween que organizou com os filhos de 19 e 23 anos, uma das colegas de quarto de seu filho trouxe uma torta de batata doce com maconha. Depois disso, April traçou um plano para o Dia de Ação de Graças: receberia parentes e amigos para jantar e, depois de se despedir daqueles que não curtiam a erva, os convidados restantes experimentariam uma torta de abóbora e maconha. Nos últimos anos, membros da família fugiam cada um para seu canto, para fumar. Agora, a família faz tudo junto.

Quando ela e os filhos fumam juntos, se sentem mais próximos. “Eles ficam mais abertos e conversadores”, diz April. “Conversam sobre coisas que os incomodam e se abrem em coisas sobre as quais não conseguem falar. Às vezes, só ficamos vendo filmes e dando risada.”

Anthony Monroe, de 58 anos, lembra-se da primeira vez em que fumou com Ebony, filha de 37. Dois anos atrás, Monroe morou com a filha por alguns meses, durante os quais sugeriu que eles compartilhassem um baseado para aliviar o estresse. Ele ficou um pouco apreensivo por fumar com ela – e ela achou que ele estivesse brincando. Mas conseguiram superar o constrangimento e Ebony diz que a experiência abriu “outra via para o relacionamento”. “A erva o deixa relaxado, mais intuitivo e receptivo”, diz Ebony. 

Tom e Kate, que moram no Estado do Oregon, e são casados, lembram-se da primeira vez em que Tom passou o Natal na casa dos pais de Kate. Ela deu o alerta: o lado da mãe está cheio de católicos, o do pai gosta de identificar rochas e plantas. Ah, e após o jantar alguém traz o vaporizador.

Tom estava preparado, mas, quando a cena aconteceu, ele caiu em outra situação embaraçosa: ficou mais drogado do que esperava. Ele se lembra de encostar no ombro de Kate, convencido de que ele era uma câmera que o diretor o posicionara ali para capturar a cena. “Quebrou o gelo”, diz Tom. A experiência uniu a família. “Deixou os pais de Kate mais próximos e acessíveis naquele delicado estágio inicial do relacionamento”, diz ele. / W.POST, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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