Macri adota estilo Sarkozy para modificar Buenos Aires

Novo prefeito moderniza gestão e trava batalha contra máquina sindical e clientelismo da capital argentina

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2008 | 00h00

Os críticos de Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires, o acusam de copiar o magnata e político italiano Silvio Berlusconi e seu "populismo fiscal", por causa de sua cruzada em reduzir os gastos públicos. Mas ele próprio prefere ser comparado com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, de quem se declara fervoroso fã. Desde que tomou posse da prefeitura, há um mês e meio, Macri vem atuando como seu ídolo. Com atividade febril - acompanhado pelo marketing da hiperatividade -, ele não hesitou em bater de frente com a velha máquina sindical e o clientelismo, que controlam a capital do país há décadas.Macri tenta adotar uma nova forma de gestão, distante de modelos populistas aplicados pelos partidos tradicionais. O objetivo é impor na administração municipal o mesmo choque modernizador que aplicou no Boca Juniors, o time de futebol mais popular do país, do qual foi presidente por mais de dez anos.Seus primeiros dias na prefeitura foram marcados pelo rebuliço que provocou ao anunciar o afastamento de 2.500 ñoquis -"nhoques", como são chamados os "marajás" portenhos, já que não trabalham o mês o inteiro e só aparecem no dia 29 (dia tradicional de comer nhoque na Argentina), para receber o salário. De dezembro de 2002 a maio de 2007, a administração portenha contratou, em média, um novo funcionário a cada três horas. Só no pagamento de salários, a prefeitura destina mais de 50% do Orçamento.Os sindicatos saíram às ruas para protestar e conseguiram na Justiça a recontratação dos funcionários. Macri entrou com um recurso para contestar a decisão. Em outra estocada, Macri baixou um decreto exigindo que piquetes e protestos só pudessem ser feitos com autorização da prefeitura. Grupos de piqueteiros - que nos últimos seis anos bloquearam avenidas sem jamais serem incomodados - imediatamente desafiaram as ordens.Apesar dos reveses, Macri deixou claro que outros 20 mil funcionários também poderão ser demitidos em março. Ele introduziu o uso de câmeras secretas nas repartições públicas e passou a fazer visitas inesperadas aos órgãos municipais para verificar se os funcionários estão trabalhando. Na quinta-feira, ele denunciou que, só em 2007, a prefeitura registrou um total de 2,7 milhões de ausências por doença, o equivalente a 20 dias por funcionário. Macri considera que existe uma máfia para a concessão das licenças, que no último ano dobrou em relação a 2003.Segundo o analista político Hugo Haime, Macri está tentando criar condições de governabilidade. "Para mostrar liderança, ele definiu os sindicatos e os marajás como inimigos. Ambos estão desvalorizados perante a população e também entre o próprio funcionalismo", disse Haime ao Estado. Macri também começou a retirar os sem-teto das praças e agora elabora um plano para remover os moradores das favelas instaladas em áreas públicas. A estratégia deu certo: uma pesquisa recente realizada pela consultoria Aresco indicou que a imagem de Macri é considerada "boa" por 52,9% da população e "muito boa" por 17,2%.Líder da coalizão de centro-direita Proposta Republicana, Macri foi eleito com 61% dos votos em junho. Agora, o prefeito disputa o título de líder da oposição com Elisa Carrió, da centro-esquerdista Coalizão Cívica. No entanto, esse posto só ficará evidente a partir das eleições parlamentares de outubro de 2009, no meio do mandato da presidente Cristina Kirchner. O mais bem posicionado deverá disputar contra os Kirchners a eleição presidencial de 2011. Portanto, Macri conta com um ano e oito meses para "mostrar serviço" na capital do país.

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