Macri anima oposições da região

Grupos esperam que vitória de opositor na Argentina represente início de mudanças

Debora Rey, AP, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2015 | 07h20

Para a oposição na Venezuela, na Bolívia e em outros países com governos de centro-esquerda, o triunfo de Mauricio Macri na Argentina, colocando fim a 12 anos de kirchnerismo, é o pontapé de um novo ciclo político na América Latina. EUA e Espanha, dois países que mantiveram uma relação tensa com o kirchnerismo, também pressagiam um vínculo mais estreito com o país, ao passo que o governo das Ilhas Malvinas pediu ao presidente eleito “que trabalhe conosco e não contra nós”.

As expectativas emergiram em todo o continente, mas os mais esperançosos e otimistas com o triunfo de Macri são os opositores do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. “Queremos uma mudança de regime que abandone o populismo e apoie o progresso. Espero que este espírito de mudança na Argentina chegue ao meu país”, disse o estudante venezuelano Carlos Socas, participando do festejo dos partidários de Macri, que no dia 10 assumirá a presidência argentina.

Cristina Kirchner e seu marido Néstor, morto em 2010, fundaram o kirchnerismo, corrente de centro-esquerda dentro do peronismo com uma política externa que se caracterizou pelo apoio, com outros governos populistas, à formação de um bloco regional para debilitar a influência dos EUA na América Latina. Macri anunciou na segunda-feira que, na reunião de presidentes do Mercosul, no próximo mês, pedirá a suspensão da Venezuela pelos “abusos do governo contra os opositores e a liberdade de expressão”.

A aliança Mesa da Unidade Democrática (MUD), que reúne as forças de oposição ao governo de Maduro, declarou em comunicado que “hoje, o que transita pela América Latina não é um talão de cheques comprando adesões, mas a vontade de mudança dos nossos povos, exigindo a construção de economias livres e produtivas”.

Para a ativista venezuelana Lilian Tintori, mulher do líder de oposição preso Leopoldo López, que participou no domingo à noite da festa da vitória de Macri em Buenos Aires, “a mudança política na América Latina começou”. “Os argentinos conseguiram com seu voto o que virá para a Venezuela no dia 6”, disse ela, referindo-se às eleições legislativas em seu país.

A oposição na Bolívia também festejou a vitória de Macri. “O povo venceu, a democracia ganhou, começa um novo tempo”, disse o líder da coalizão de oposição Unidade Nacional, o empresário Samuel Doria Medina – que disputou a presidência em três eleições consecutivas. Para outro líder de oposição, Rubén Costas, governador de Santa Cruz, a região mais rica da Bolívia, o triunfo de Macri representa “ventos de mudança na região”.

Os opositores bolivianos esperam que o resultado das eleições na Argentina fortaleça sua batalha pelo “não” à reeleição de Evo em 21 de fevereiro, num referendo para aprovar ou rejeitar uma reforma constitucional que lhe permitiria disputar mais um mandato em 2019.

Brasil. O triunfo de Macri também abre uma nova etapa nas relações da Argentina com Chile, Brasil, Paraguai e Uruguai, países com os quais o governo kirchnerista manteve divergências comerciais ao lado de empatia ideológica com alguns de seus governos.

Macri reiterou que sua primeira visita oficial como presidente será ao Brasil, principal parceiro comercial, embora a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula tenham apoiado o candidato do governo Daniel Scioli.

Eduardo Montealegre, ex-candidato à presidência da Nicarágua e líder do Partido Liberal Independente, de oposição, a formação com mais votos no Parlamento depois da Frente Sandinista, afirmou que o triunfo de Mauricio Macri “na minha opinião é o resultado da convicção dos argentinos de que esse modelo não é a solução”. Segundo Arnoldo Alemán, ex-presidente da Nicarágua, “há um cansaço dos sistemas que chegam ao poder com propostas de socialismo irreais”. “São fantasias, e é bom que isso esteja desaparecendo e a democracia volte a florescer na América Latina. Logo veremos isso em outros países da região.”

O chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, disse esperar que o governo de Macri continue as negociações envolvendo a energia excedente da usina Yaciretá por cuja cessão, em 2014, a Argentina contraiu dívida de US$ 60 milhões. A presidente chilena, Michelle Bachelet, declarou ter telefonado a Macri na noite de domingo e disse que falaram “sobre a importância para nossos países de mantermos o espírito de colaboração, integração e desenvolvimento que caracteriza nossa história”.

No Uruguai, país com o qual o casal Kirchner manteve um duro conflito pela construção de fábricas de celulose perto de rios comuns aos dois países, o presidente Tabaré Vázquez afirmou que telefonou para Macri. “Eu o felicitei pelo triunfo que teve e pelo amadurecimento cívico e o respeito democrático demonstrados pelo povo argentino”.

O secretário de Estado americano, John Kerry, manifestou sua expectativa em trabalhar estreitamente com o novo governo argentino. “Confiamos que Estados Unidos e Argentina continuarão trabalhando juntos para promover a prosperidade e a segurança regionais e em prol do desenvolvimento e dos direitos humanos em nosso hemisfério e no planeta”.

O chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy, enviou telegrama de felicitações para o presidente eleito, destacando que “América Latina e Espanha necessitam de uma Argentina unida, próspera e solidária”. As relações entre Argentina e Espanha chegaram a seu mais baixo nível depois que Cristina Kirchner recuperou para o Estado o controle acionário da empresa de petróleo YPF, em mãos da espanhola Repsol. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

DEBORA REY É JORNALISTA DA AP

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