AFP PHOTO/Eitan Abramovich
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Macri desafia maioria opositora e condena herança K no Congresso

No discurso de abertura do Congresso, presidente argentino diz que país não consegue cumprir suas obrigações por falta de planejamento e corrupção

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE/BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2016 | 08h20

BUENOS AIRES - O gabinete do presidente argentino Mauricio Macri estava dividido sobre a conveniência política de expor a herança kirchnerista no discurso presidencial mais importante do ano, o de abertura do Congresso, na terça-feira. A base governista precisa do apoio de opositores moderados que estiveram com Cristina Kirchner e têm dado sinal de apoio a projetos decisivos que serão votados a partir desta quarta-feira, 2. O líder eleito por uma coalizão de centro-direita dissipou a dúvida na primeira metade de sua fala de uma hora, ao acusar o governo antecessor de mentiroso e corrupto em todas as áreas. "Quero ser claro sobre o ponto de partida porque viemos de anos de um Estado que mentiu sistematicamente, confundindo todos e apagando a linha entre a realidade e a fantasia. A credibilidade e a confiança foram destruídas."

Macri afirmou que o Estado argentino não tem tem capacidade de cumprir suas obrigações por falta de planejamento e por corrupção. Ele mencionou o discurso feito por Néstor Kirchner há 13 anos no Congresso defendendo o superávit fiscal - hoje o déficit anual é de 7% do PIB. "Encontramos um Estado tomado por clientelismo, desperdício e corrupção. Um Estado a serviço da militância política."

Depois de meia hora falando do que recebeu, disse que poderia continuar o dia inteiro e prometeu publicar em detalhes o que era a Argentina quando ele assumiu o poder em 10 de dezembro. Não houve boicote em massa de parlamentares kirchneristas desta vez, como em sua posse. A ausência mais notada foi a de Máximo Kirchner, filho da ex-presidente. 

O bloco mais duro de opositores a Macri colou cartazes sobre suas mesas com críticas à ordem de demissões estatais - 8 mil do governo federal, 20 mil em todas as esferas públicas. O presidente foi tratado com cordialidade na maior parte do tempo. Ouviu gritos de contrariedade pontuais, mas em duas ocasiões vaias de opositores o impediram de continuar falando. Ele pediu respeito ao voto e foi aplaudido por sua base. A primeira foi quando condenou com um "nunca mais" o golpe de Estado que há 40 anos colocou a Argentina em sua última ditadura (1976-1983). 

Macri recebeu durante a campanha eleitoral apoio de organizações que defendem militares presos por crimes durante o regime. Ele prometeu seguir com os julgamentos de torturadores, uma das grandes bandeiras kirchneristas. "É correto que ele mencione a ditadura e não recue. Deveria ser criticado por reduzir impostos às mineradoras", disse ao fim do discurso Victoria Donda, a deputada do Movimento Livres do Sul, que integrou o bloco kirchnerista Frente Para a Vitória até 2008.

O outro momento de dificuldade para Macri foi quando afirmou que a inflação existe "porque o governo anterior a promoveu como uma ferramenta de política econômica válida". O kirchnerismo adulterou indicadores de preços e de pobreza. Em três meses, a administração Macri não deu números, alegando que não seriam confiáveis, mas admitiu um avanço inesperado da inflação - cerca de 30% nos últimos 12 meses, segundo consultorias independentes que a colocavam em 25% durante o kirchnerismo. "Tínhamos uma inflação que estávamos levando e um dólar administrado. Dizer que essa inflação é nossa culpa é mentira", rebateu a deputada kirchnerista Diana Conti.

Uma pista de por que Macri foi tão enfático nas críticas estava no tom dos comentários do opositor moderado Sergio Massa, que ficou em terceiro lugar na eleição de 2015 - o segundo colocado foi o kirchnerista Daniel Scioli. Massa elogiou em linhas gerais o discurso, assim como a principal medida econômica até agora, a liberação da compra e venda de dólares, que Cristina controlou a partir de 2011. O último grande passo do governo na área, o acordo com os detentores de títulos anunciado na segunda-feira - apelidados por Cristina de abutres - foi mencionado por Macri, já que ele depende da Casas para levá-lo adiante. 

O presidente precisa do Congresso para derrubar até 14 de abril duas leis que vetam o pagamento de US$ 4,6 bilhões assumido com os quatro fundos, por ter sido combinado em termos diferentes aos acertados com 93% de credores, que aceitaram a renegociação de 2005 e 2010. No Senado, Macri conta com a ajuda da pressão de governadores sobre os políticos peronistas (a liberação de verbas federais para as províncias depende diretamente do presidente). Na Câmara, há opositores moderados em número suficiente para garantir os votos necessários para Macri. "Ainda queremos ler com detalhes o acordo. Não queremos que os credores que estão entre os 93% possam voltar ao litígio", disse Massa, dando a entender que apoiaria o fim do litígio de mais de 14 anos entre a Argentina e seus credores.

Segundo o analista político Carlos de Angelis, o chefe de gabinete Marcos Peña e o marqueteiro Jaime Durán Barba consideravam desnecessária a exposição antikirchnerista. "Eles defendiam a ideia de que para a população em geral é irrelevante quem cometeu o erro, interessa que a coisa funcione", afirmou De Angelis. Ganhou a corrente mais antiperonista dentro do governo, da qual fazem parte, por exemplo, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, e a vice-presidente, Gabriela Michetti.

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