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Marcos Brindicci/Reuters
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Macri deve priorizar estabilidade econômica e retomada de laços com comunidade financeira internacional

Vitória do candidato conservador argentino no domingo, com 51,40% dos votos, também deve favorecer acordos comerciais entre Mercosul e UE, mas põe em risco relação com a Venezuela

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 13h08

WASHINGTON - Se cumprir suas promessas de campanha, o argentino Mauricio Macri deverá se tornar o primeiro presidente sul-americano em exercício a confrontar a Venezuela nos organismos regionais por violação de princípios democráticos. Mas sua grande prioridade será a estabilização da economia argentina, para a qual será essencial a reconstrução dos laços com os Estados Unidos e a comunidade financeira internacional, disseram analistas ouvidos pelo Estado.

A vitória de Macri também deverá facilitar a negociação de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia e tornar o bloco mais receptivo à aproximação com as nações da Aliança do Pacífico -Chile, Colombia, México e Peru.

Na opinião de Cynthia Arnson, diretora do programa de América Latina do Wilson Center, Macri vai "mudar a dinâmica" da região em relação à Venezuela.  "Se ele levar a questão da Venezuela para a Organização dos Estados Americanos (OEA) ou pressionar pela libertação de Leopoldo López será mais difícil para os outros países se oporem", afirmou Arnson, lembrando que os presidentes da América do Sul evitaram até agora adotar posições contundentes em relação às acusações de violação de direitos humanos pelo governo de Nicolás Maduro.

Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue, acredita que a vitória de Macri facilitará uma eventual reforma do Mercosul capitaneada pelo Brasil e abrirá espaço para o governo Dilma Rousseff ser mais assertivo em relação à Venezuela. Mas ele ressalta que a prioridade do novo presidente estará no fronte doméstico -"economia, economia, economia", repetiu. 

Nesse terreno, os dois analistas concordaram em que a relação com Washington será crucial. "Macri será recebido de braços abertos pelos Estados Unidos", ressaltou Arnson. Segundo ela, a comunidade empresarial americana já comemorava com antecipação a possibilidade de sua vitória nas eleições de domingo. No governo, o novo presidente terá que corrigir medidas econômicas vistas como distorsivas, entre as quais a que estabelece controle sobre fluxo de capitais, disse Arnson.

Acima de tudo, Macri terá de resolver a disputa com detentores de títulos argentinos que não foram incluídos na reestruturação da dívida do país realizada entre 2005 e 2010. Esses credores venceram disputa judicial de primeira instância nos EUA no ano passado, o que levou a Argentina a um novo default. Com isso, o país perdeu acesso ao mercado financeiro internacional, que Macri terá de reconquistar.  

Na avaliação de Hakim, a mudança de tom na política externa pode ser feita de maneira relativamente fácil, já que não precisa de aprovação do Congresso. "Ele pode fazer isso com telefonemas, visitas e convites para líderes estrangeiros visitarem a Argentina." Segundo Hakim, Washington se afastou do país latino-americano durante o governo de Cristina Kirchner.  "No momento, os Estados Unidos não têm nenhuma política em relação à Argentina, porque a Argentina é imprevisível. Como é possível ter uma estratégia para um país que não tem uma abordagem coerente dos problemas? Um dia eles podem ser amigáveis, no outro, não", ponderou.

Apesar de os Estados Unidos estarem dispostos a melhorar sua relação com a Argentina, 2016 não será o ano mais promissor para esse movimento. Com eleições presidenciais em novembro do próximo ano, o país estará mais concentrado em questões domésticas do que internacionais, com exceção de temas relacionados ao Estado Islâmico e do combate ao terrorismo. E mesmo com mudanças, ninguém prevê um retorno aos anos de Carlos Menem (1989-1999) quando a Argentina declarava ter "relações carnais" com os Estados Unidos.

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