AP Photo/Ricardo Mazalan
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Macri prega união, mas ataca herança kirchnerista ao assumir presidência

Em discurso, novo presidente argentino diz que será um governante que admitirá erros, não será personalista, atacará a corrupção e respeitará a independência de poderes

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES e Ricardo Galhardo ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2015 | 02h00

Aos 56 anos, o engenheiro Mauricio Macri assumiu ontem a presidência da Argentina com uma série de atos em que defendeu união e tolerância. Ele se permitiu desrespeitar a própria pregação ao prometer ser a antítese de sua antecessora, um governante que admitirá erros, não será personalista, atacará a corrupção e respeitará a independência dos poderes. 

Embora não tenha nomeado Cristina Kirchner nos discursos que proferiu no Parlamento e na Casa Rosada, o engenheiro que administrou Buenos Aires nos últimos oito anos emitiu sinais de que enfrentará o movimento político que governou o país nos últimos 12 anos, com Cristina (2007-2015) e Néstor (2003-2007). 

Em seus primeiros dias como presidente eleito, após a vitória sobre Daniel Scioli no dia 22 por 51,3% a 48,7%, Macri deu indícios de que estenderia pontes com o inimigo. Manteve um ministro kirchnerista na pasta de Ciência e Tecnologia, Lino Barañao, e fugiu das perguntas em que era instigado a falar mal de Cristina. A controvérsia em torno do local da posse – ela queria entregar a faixa presidencial no Congresso, ele insistia em recebê-la na Casa Rosada – destruiu a frágil trégua. 

Sem acordo e com uma decisão judicial – promovida por Macri – para que seu mandato acabasse à zero hora de ontem, Cristina não só não foi à posse. Ela instigou a maior bancada de parlamentares a boicotar o juramento do novo líder no Congresso. Entre 140 peronistas e aliados do kirchnerismo, no Senado e na Câmara, apenas 30 dissidentes ouviram o juramento de Macri às 11h45. Neste momento, o filho de um dos empresários mais ricos da Argentina tornou-se formalmente presidente comprometendo-se a “governar para os que menos têm”.

Esse foi um dos três eixos de seu primeiro discurso do dia, objetivo se comparado aos de sua antecessora. Durante 30 minutos, Macri reforçou promessas básicas de campanha: união entre os argentinos, combate ao narcotráfico e o fim da pobreza. Ressaltou a importância de urbanizar as favelas e levar esgoto às regiões mais pobres, algo que não conseguiu consumar na capital argentina.

No combate às drogas, disse que começará a maior operação já feita no país para resolver o problema. A insegurança, embora os indicadores argentinos estejam entre os melhores da América Latina, é o tema que mais preocupa a população. 

As referências mais diretas a sua antecessora vieram quando pediu aos argentinos que se unissem, mesmo que não pensassem igual. Ele mencionou todos os outros cinco candidatos que disputaram a eleição, em um sinal de que ouvirá suas propostas. Macri venceu a disputa encabeçando a coalizão de centro-direita Cambiemos. 

Lendo em um tom calmo, Macri criticou “governos personalistas que administram em proveito próprio” e demonstrou apoio à magistratura. “Expresso meu apoio à Justiça independente. Não haverá juízes macristas. Não pode haver juízes militantes de nenhum partido”, afirmou, acrescentando que o Judiciário impediu nos últimos anos o país de cair no autoritarismo profundo. Saindo do roteiro de suas linhas de campanha, foi incisivo ao propor uma luta contra a corrupção, “mesmo que atinja integrantes de seu partido”. 

“Foi o ponto mais surpreendente do discurso. Parece ser um recado para os integrantes da administração anterior acusados de irregularidades”, avaliou Carlos de Angelis, sociólogo e professor da Universidade de Buenos Aires. 

Macri concluiu sua fala no Congresso reforçando o chamado à tolerância. “Convoco todos à arte do acordo. O país só irá para frente se trabalharmos juntos. Sempre vou ser sincero com vocês. Os desafios são enormes e não poderemos resolver de um dia para o outro. Necessito que apontem nossos erros. Se os argentinos voltarem a se unir, seremos imbatíveis”. Macri concluiu seu discurso sem que a presidente Dilma Rousseff chegasse a tempo (mais informações na página A15). Ela teria um breve encontro com ele na Casa Rosada, mas também não acompanharia a passagem da faixa presidencial, feita pelo aliado de Macri, Federico Pinedo, que preside temporariamente o Senado.

Troco. O novo presidente respondeu ao boicote kirchnerista no Congresso dando seu discurso na Casa Rosada, já com a faixa presidencial, da varanda em que Cristina não se atreveu a falar em oito anos no poder. A ex-presidente dava ao lugar um tom sagrado, por ter sido usado por Evita Perón em um de seus discursos mais célebres. 

Cristina disse ontem não ter acompanhado nada do juramento e viajou em classe turista na companhia Aerolíneas Argentinas para Río Gallegos, na Província de Santa Cruz, que será governada por Alicia Kirchner, sua cunhada. A ex-presidente argumentou que não poderia passar a faixa a Macri na Casa Rosada para poder estar na posse da parente. 

Enquanto ela voava, Macri se divertia com a cumbia que embalou sua campanha diante de uma multidão reunida na Praça de Maio, lugar que no dia anterior havia sido ocupado por militantes de Cristina para uma despedida. Ao ouvir pedidos para que dançasse – passos laterais semelhantes aos de um caranguejo ficaram famosos em seus comícios –, Macri respondeu primeiro que a faixa não permitia. “Não posso dançar. Prometi a (Michelle) Bachelet dançar com ela, vou ter de buscá-la”, desculpou-se em seguida. 

Diante da insistência do público, deu a faixa à primeira-dama, Juliana Awada, e repetiu a dancinha. Alguns espectadores mais velhos e bem vestidos, comentaram que a atitude era “desnecessária”. A maioria aplaudiu. Gabriela Michetti, uma das figuras mais à direita do governo, que se disse arrependida por ter votado contra a lei de matrimônio gay aprovada em 2010, animou-se a cantar.

A multidão acompanhou a posse ao som de tambores e gritos de “sí se puede” (sim, se pode). Dos prédios, moradores jogavam papel picado azul e branco, cores da bandeira argentina. Partidários de Macri se acotovelavam no caminho entre o Congresso e a Casa Rosada para tirar fotos e saudar o novo presidente que desfilou em carro conversível. 

O clima de rivalidade que marcou disputa eleitoral provocou alguns incidentes. Um grupo de eleitores do novo presidente tentou arrancar a lateral de uma banca de revistas onde havia grafites em favor de Cristina. O dono da banca, afirmando aos gritos não ser kirchnerista, tentou evitar a depredação até que outro grupo, conseguiu acalmar os radicais. 

Macri despediu-se dizendo que precisava receber os chefes de Estado no Palácio San Martín, edifício da chancelaria. Voltou a pedir união e sumiu da varanda da sede presidencial gritando repetidamente “gracias, gracias y gracias”.


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