HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Macri promete festa da independência mais barata do que a de Cristina, em 2010

Macrismo se gaba de despolitizar data e gastar menos que peronista, que festejou há seis anos começo da independência

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2016 | 05h00

A independência declarada há 200 anos em um 9 de julho será celebrada amanhã com formas clássicas de argentinismo. Haverá filas em restaurantes por uma tigela de locro, um espesso ensopado de canjica de milho, e as janelas serão decoradas com bandeiras azuis e brancas. Mas desta vez há um ingrediente novo, que fermenta desde a posse de Mauricio Macri em dezembro, o debate sobre quem terá feito a melhor festa, ele ou Cristina Kirchner há seis anos.

A Argentina tem duas datas pátrias. Em 25 de maio de 1810, foi constituído o primeiro governo nacional na chamada Revolução de Maio, mas não se rompeu com a Espanha. A declaração de independência só veio em 9 de julho de 1816. 

Com duas opções para apelar ao patriotismo, o presidente de turno usa a data redonda que lhe convém. Em 2010, Cristina investiu pesado em uma celebração em meio a uma crise interna. Ela havia comprado uma briga com produtores rurais, tentando impor novos impostos na chamada crise do campo. Foi o episódio que mais abalou sua popularidade em dois mandados.

Cristina criou a Unidade do Bicentenário, com carta branca para colocar em uma festa 2 milhões na Avenida 9 de Julho, em Buenos Aires. Na celebração daquele ano, ela atrair os principais chefes de Estado da região, a maior parte alinhados a seu projeto político. Só naquele ano, o governo gastou US$ 6,8 milhões, mas a Unidade do Bicentenário não se apegou à efeméride. Manteve orçamentos semelhantes nos anos seguintes, o que levou a um gasto de US$ 73 milhões até 2015. 

Funcionários do governo de Macri se orgulham de terem preparado uma festa boa e barata e criticam. Gastarão US$ 4,6 milhões. Em um sinal de civilidade, convocaram parlamentares de todas tendências para ir a Tucumán, no norte, onde a declaração foi assinada há 200 anos. A bancada kirchnerista não apareceu e o jornal Página 12, simpático a Cristina, brincou que a homenagem não teve quórum.

A lista de autoridades é uma questão de Estado para os macristas. A possibilidade de o mexicano Enrique Peña Nieto cancelar a viagem foi encarada como desfeita reproduzida na imprensa argentina. Ontem, a Casa Rosada não sabia quem representaria o Brasil na cerimônia.

Desde que assumiu, Macri tomou medidas contra a propaganda kirchnerista em prédios públicos. O historiador Luis Alberto Romero não acredita que o governo corra o risco de fazer uma versão macrista da festa. “O governo anterior não preparou nada para este ano. Por alguma razão, tratou de reduzir a importância do que ocorreu em 1816. 

Talvez porque soubesse que não seriam eles que comemorariam”, critica Romero, autor de Breve História da Argentina.

“A festa de 2010 foi kirchnerista, é verdade, e não há como evitar a discussão política. O único ponto de união é o locro, que amanhã venderemos 50% mais”, diz Cintia Solaro, dona de um restaurante regional que prepara a iguaria por 115 pesos (US$ 7), 30% mais caro do que há um ano.

São Paulo. Em São Paulo, o cônsul-geral argentino, Diego Malpede, presidiu ontem uma celebração na Praça San Martín, nos Jardins, para marcar os 200 anos da independência de seu país. Malpede, representantes do governo e empresários depositaram flores no Monumento a San Martín, herói nacional argentino.

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