EFE
EFE

Macri rompe elo entre Estado e futebol grátis na TV

Casa Rosada terminará com projeto kirchnerista Futebol Para Todos, mas pede que cobrança só comece em 2019

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2016 | 21h50

O governo de Mauricio Macri deixará de bancar em 2017 as transmissões futebol gratuitas instituídas pelo kirchnerismo como ferramenta de propaganda. Ao aceitar o pedido de 95% dos clubes para rescindir o contrato do programa Futebol Para Todos, que só terminaria em agosto de 2019, o governo se livra de um gasto que nunca considerou prioritário.

Em contrapartida, assume um risco político ao cortar o que de alguma maneira também é um subsídio kirchnerista, como o retirado desde março dos serviços de luz, água e gás. Macri enfrenta insatisfação popular e disputa judicial indefinida porque algumas contas tiveram reajuste superior a dez vezes. 

Macri, ex-presidente do Boca Juniors, orientou seu time a prevenir um novo desgaste. A Casa Rosada admite estar satisfeita com a economia de 2,5 bilhões de pesos (R$ 434 milhões) anuais pagos pelos direitos de transmissão, mas insistirá com a Associação de Futebol Argentino (AFA) para que até 2019 nenhum torcedor desembolse mais para ver na TV um jogo dos times nacionais. É uma forma de não ser acusado de descumprir uma promessa de campanha.

Quem vive em Buenos Aires e na região metropolitana tem acesso a todas as partidas graças à estatização da transmissão adotada por Cristina Kirchner em 2009. No restante do país, o acesso é apenas aos jogos transmitidos pela Televisão Pública e é mais comum ter de recorrer ao serviço a cabo. 

O programa de “democratização do futebol” tornou-se uma marca tão forte do kirchnerismo que seus críticos passaram a usar o complemento “para todos” como ironia. O principal programa de investigação jornalística do período, o Periodismo Para Todos, era um exemplo. 

Macri começou a sofrer a crítica oposta desde que os clubes receberam uma oferta de 3,2 bilhões de pesos (R$ 695 milhões) anuais da americana Turner e passaram a pressionar pelo fim do projeto kirchnerista. Tuiteiros acusavam Macri de lançar o “Futebol Para Poucos”. Desde que assumiu, Macri determinou o fim da propaganda de obras públicas e dos slogans políticos durante as transmissões. Ele também abriu o espaço à publicidade privada para reduzir o ônus do Estado. 

A tendência é que o impacto político da decisão seja sentido em 2017, um ano de eleição parlamentar decisiva para o macrismo porque a oposição moderada peronista, que hoje o apoia no Congresso, tende a abandoná-lo pensando na sucessão presidencial de 2019.

Só no ano que vem, quando termine o contrato, o governo terá certeza se terão efeito sobre a AFA e sobre o comprador dos direitos os argumentos para segurar a cobrança até 2019. Para a AFA, tirar a Casa Rosada do papel de financiador é conveniente porque os dirigentes deixam de ter o Estado como vigia. Hoje, a instituição tem um presidente nomeado pela Fifa e fiscais do Executivo e do Judiciário, que investiga uma fraude envolvendo ex-ministros de Cristina e dirigentes ainda na instituição. Essa poderia ser uma razão para atender ao pedido do governo argentino.

“O cenário hoje é muito dinâmico em razão do tarifaço. Há protestos, o Congresso começa a pôr limites ao governo, a Suprema Corte deve se pronunciar sobre a validez dos reajustes. Em meio a isso, a questão do futebol não influi. Mas se o tema for sentido mais adiante, sem outras questões com que dividir a atenção, pode haver desgaste”, avalia o cientista político e consultor Raúl Aragón.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.