REUTERS/Charles Platiau
REUTERS/Charles Platiau

Macron aceita negociar reforma da previdência

Segundo fontes, presidente estaria disposto a rever a idade mínima de aposentadoria, a maior reclamação dos manifestantes

Estadão, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2019 | 00h08

PARIS - O presidente francês, Emmanuel Macron, não vai retirar o projeto de reforma da previdência, mas “está disposto a melhorá-lo durante conversas com os sindicatos”, anunciaram, na quarta-feira, 18, fontes próximas ao governo, após duas semanas de greve e de protestos nas ruas. Segundo as fontes, que pediram anonimato, “avanços” importantes podem ocorrer até o fim da semana.

O primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, recebeu, na quarta-feira, os líderes dos sindicatos, ao lado do novo secretário de governo para a reforma da previdência, Laurent Pietraszewski, que substituiu o anterior, obrigado a pedir demissão em plena crise social por um suposto conflito de interesses. O objetivo dos encontros, que serão realizados também nesta quinta-feira, é encontrar uma saída para a greve que enfraquece o governo, bloqueia muitas atividades e irrita a população.

As fontes afirmaram que Macron deseja negociar uma trégua na mobilização social durante as festas de fim de ano. No entanto, o diretor do maior sindicato da França, a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Philippe Martinez, reiterou após a reunião que não tem intenção de fazer uma “trégua de Natal” se o governo não retirar o projeto de reforma. “Temos perspectivas diferentes. Não temos os mesmos valores”, afirmou o líder sindical.

De acordo com algumas pessoas ligadas ao governo, Macron estaria disposto a negociar a idade mínima de aposentadoria, que a reforma aumenta de 62 para 64 anos. Essa é a maior reclamação dos manifestantes, mas é por meio dela que o presidente pretende manter o equilíbrio financeiro do sistema, uma vez que todos poderão continuar a se aposentar aos 62 anos, mas sem o valor integral, que só seria pago para quem esperar até os 64 anos.

Essa ideia foi rejeitada pelos sindicatos, principalmente pela CFDT – até pouco tempo aliada do governo –, que a considera como “uma linha vermelha” perigosa que o governo atravessou. Philippe fará o possível para recuperar seu aliado com o objetivo de enfraquecer o movimento. Mas, ao deixar a sede de governo na quarta, o líder da CFDT, Laurent Berger, disse à imprensa que os dois lados ainda estavam “muito longe” de um acordo.

As conversações continuam nesta quinta e Philippe receberá os líderes das empresas de transporte de Paris e da companhia ferroviária nacional. Os sindicatos chegam à mesa de negociações fortalecidos depois de terem conseguido levar às ruas uma multidão, na terceira jornada nacional de protestos em duas semanas.

Na terça-feira, o Ministério do Interior estima que mais de 600 mil pessoas protestaram nas ruas das principais cidades francesas, mas os sindicatos asseguram que 1,8 milhão de manifestantes participaram dos atos contra a reforma da previdência, que planeja unificar os atuais 42 regimes de pensões em um sistema único.

Na quarta-feira, a situação do transporte público continuou caótica. Foi o 14.º dia de paralisação seguido e era visível o nervosismo entre a população. Ir para a escola ou para o trabalho passou a ser um desafio para milhares de franceses, principalmente em Paris. Oito das 16 linhas de metrô permaneceram fechadas e 4 funcionaram parcialmente.

Os trens urbanos e os ônibus circulavam apenas esporadicamente e totalmente lotados. Muitos cidadãos preferiram alugar bicicletas, patinetes ou percorrer dezenas de quilômetros a pé, em vez de se arriscar em algum transporte público.

Segundo uma pesquisa, 62% dos franceses continuam apoiando a greve, mas 69% desejam uma “trégua de Natal”. A questão da aposentadoria é um assunto delicado na França, onde a população é muito apegada a um sistema no qual os atuais trabalhadores pagam as pensões dos aposentados e é um dos mais protecionistas do mundo.

Estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugerem que, embora haja atualmente quase três trabalhadores financiando um aposentado na França, em 2050 haverá menos de dois.

Em breve, as aposentadorias serão menos generosas e exigirão que as pessoas trabalhem mais, especialmente se os gastos do Estado com as pensões se mantiverem em torno de 14% do PIB. A França não está sozinha – a crise previdenciária é um fenômeno de toda a Europa, mas não deixa de ser um obstáculo para o futuro dos franceses. / AFP

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