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Macron e Pétain

Há seis meses, tudo o que Macron diz é considerado desajeitado ou provocador

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2018 | 05h00

Foi uma boa ideia: para comemorar os 100 anos do fim da 1.ª Guerra, o presidente Emmanuel Macron imaginou dedicar uma semana de visita aos “lugares de memória da identidade francesa”, onde ocorreram as maiores, mais sangrentas e heroicas batalhas: pequenas aldeias no leste da França, algumas riscadas dos mapas e devolvidas à floresta, outras mutiladas para sempre.

Sim, uma boa ideia, mas Macron tem falhas. A pior é que ele adora conversar, dar aulas de filosofia, de história, dar conselhos a todos. Toda vez que ele deixa o cenário silencioso do Palácio do Eliseu, deve acrescentar alguns capítulos ao seu “registro de gafes”. Estranho: enquanto ele era desconhecido, suas palavras eram sensíveis. Desde que assumiu a posição suprema, não pode mais sair de seu palácio sem deixar escorregar alguma tolice, um insulto ou uma provocação. A viagem planejada para recuperar sua popularidade oscila à beira do precipício.

O que aconteceu durante dois dias nos campos de batalha na Lorena não escapou dessa tendência. Macron insistiu em falar de um homem, o marechal Pétain, que foi, em 1917, o vencedor da terrível Batalha de Verdun, revertendo de uma só vez o curso da guerra. Grande figura militar, portanto. Só que, 20 anos depois, os nazistas esmagaram o Exército francês, os alemães ocuparam a França e o velho Pétain, herói de Verdun, tornou-se mandatário da França. 

O marechal organizou a colaboração com Hitler. Macron queria evocar esta página ainda maculada da história da França, evocar a figura de Pétain, herói de 1917 e colaborador de 1940. Uma acrobacia dialética que Macron não temia tentar – e deu de cara no chão. Se os antigos entusiastas de Pétain se encantaram, muitos que preferem a França da resistência (a de De Gaulle e dos comunistas) ficaram escandalizados.

Os mais virulentos foram os judeus. Eles não querem esquecer que Pétain, muito rapidamente, em 1940, e à sombra de Hitler, perseguiu os judeus da França. Ele causou a deportação de 74 mil pessoas, que pereceram nos campos de extermínio alemães. Outra imagem humilhante: o encontro de Pétain com Hitler, em 1940, quando se vê o vencedor de Verdun vigorosamente parabenizando o Führer.

O drama de Macron é que ele não está errado. O envelhecido Pétain não pode apagar o herói de 1917. Ambos fazem parte do “romance nacional”. Pétain é um dos heróis da história da França. Mas Macron, mesmo que se considere esperto, quando se aventura por caminhos escabrosos, deve definir claramente suas intenções.

Para evocar o drama de Pétain, que é o drama da França de 1940, é preciso ter uma “legitimidade histórica”. Por exemplo, De Gaulle, após a guerra, evocou essa ruptura com uma sutileza atrás da qual Macron corre sem jamais alcançar. O presidente socialista François Mitterrand soube evocar o dramático destino de Pétain – mas Mitterrand também foi sutil.

Um ano e meio atrás, tudo o que Macron tocou foi exaltado em cores brilhantes. Ele passava de sucessos a vitórias. Ele podia se permitir tudo e era sempre acompanhado por estrondosos aplausos, gritos de prazer. Há seis meses, ocorre o oposto: tudo o que ele fala é considerado desajeitado, provocador, arrogante ou estúpido. 

O ouro que fluía um ano atrás de sua augusta boca foi transformado, sem nenhuma razão aparente, em pesada vilania. Vamos esperar por uma nova metamorfose, de Macron ou dos cidadãos – e depois virá a hora da “reconquista”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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