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Macron é um fenômeno

Quem esperava ver o jovem candidato ser ‘devorado’ no debate testemunhou o oposto

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2017 | 05h00

Depois de dois meses, esperavam que ele murchasse como um balão. Que ideia a desse Emmanuel Macron de se candidatar na eleição presidencial de abril na França. Que pretensioso!

Esperavam que ele fosse ao chão nos primeiros obstáculos. Ele não só é jovem - 39 anos, que ideia mais maluca essa de ter 39 anos -, mas também nunca foi nem deputado. Pior: ele era banqueiro - e de um banco cujo simples nome faz “gelar o sangue”, o Banco Rothschild. 

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É verdade que ele foi ministro do presidente François Hollande, durante dois anos, na Economia, mas sem nenhum brilho especial. De mais a mais, ele é casado com uma senhora que foi sua professora no ginásio, que tem 25 anos a mais do que ele, que tem três filhos e sete netos. E Macron os considera como seus. Meu Deus!

Como ele é jovem, sorridente, faz o tipo “golden boy”, culto, tolerante, começou a agradar os franceses. Ele substituiria os velhos “cavalos” que giram no picadeiro desde os tempos de Matusalém. Mas não havia por que se preocupar, no entanto: os “profissionais” não se inquietaram. Macron não aguentaria o tranco. Terno demais. Suave demais. Amável demais. No primeiro confronto, meteria o rabo entre as pernas e se refugiaria nas saias de sua velha mulher.

Esse confronto ocorreu na noite de segunda-feira. Na televisão, os cinco principais candidatos debateram: duros, velhos, tarimbados, escolados em mil batalhas. A poderosa Marine Le Pen; Jean-Luc Mélenchon, o maior tribuno da França; François Fillon, o ex-primeiro-ministro de Sarkozy, poderoso, glacial e cruel. Eles o engoliriam. Ele seria dilacerado. Os espectadores presenciariam uma carnificina.

Deu-se o inverso. Viu-se Macron flutuar sobre as ondas, insinuar-se como um furão, sorrir, simular uma ou duas cóleras quando quis mostrar que, mesmo jovem, tem músculos e dentes, e depois recuperar a tranquilidade. E os outros quatro ainda mordiscavam suas panturrilhas, mas Macron já estava longe. O resultado é que, na manhã de ontem, as pesquisas citavam como o melhor debatedor aquele que nunca havia debatido, Emmanuel Mácron.

É preciso dizer que, desde o começo desta campanha, os deuses “votam em Macron”. Os candidatos mais perigosos foram postos fora de combate. Durante as “primárias”, caíram o terrível Sarkozy e o velho sábio Alain Juppé. À esquerda, o atual presidente François Hollande renunciou por conta própria a concorrer - e fez muito bem.

Restava um rival perigoso, o candidato do partido Republicanos (LR), a direita burguesa, François Fillon, duro e admirado por sua honestidade, sua virtude. Pois bem, esse Fillon se revelou repentinamente desonesto. Sorte de Macron. Fillon continua na corrida, é verdade, mas ele manca das duas pernas, se isso é possível.

Foi “sorte”, mas há também o talento de Macron. Recusando-se a ser tanto de esquerda como de direita, seus discursos são obras-primas de águas claras, inodoras, sem sabor, mas bonitas, repletas de lugares comuns que um aluno de colegial produziria aos borbotões. 

O candidato novato nunca teme se contradizer no mesmo discurso. Quando o acusam disso, ele sorri. Ele é, ao mesmo tempo, de direita e de esquerda. Como não se contradizer um pouco. Ah, bom...

Jean de La Fontaine, que foi um dos maiores escritores franceses do tempo de Luis XIV, celebrizou-se com suas fábulas com animais. Um desses animais é o morcego, esse mamífero voador. “Vejam minhas asas. Eu sou um pássaro”, diz o morcego. “Mas também sou um camundongo, vivam os ratos!” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

 

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