Regis Duvignau / Reuters
Regis Duvignau / Reuters

Macron enfrenta sua maior crise por abafar agressões de um guarda-costas

Círculo de assessores mais próximos do chefe de Estado será demitido depois que um segurança pessoal do presidente, de salário e privilégios incompatíveis com cargo, espancou um manifestante e abusou de poder; o desvio foi escondido pelo governo

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 05h00

Em meio à pior crise política de seu governo, o presidente da França, Emmanuel Macron, ordenou ontem uma reforma no gabinete que pode levar à demissão de seus assessores mais próximos. A turbulência começou quando um de seus seguranças, Alexandre Benalla, foi flagrado abusando de poder e agredindo manifestantes em Paris. O Palácio do Eliseu tentou proteger o funcionário, em lugar de demiti-lo e denunciá-lo à Justiça.

Benalla, policial militar de 26 anos, teve ascensão meteórica no governo com a chegada de Macron ao Palácio do Eliseu. Ex-militante do movimento criado pelo então candidato à presidência, o En Marche!, ele foi contratado como “adjunto ao chefe de gabinete” do Palácio do Eliseu. 

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Macron não se manifestou sobre o caso. Ele cancelou sua visita à Volta da França, um grande evento esportivo no país, e limitou suas aparições públicas nos últimos dias. Por meio de seu porta-voz, informou que uma reforma completa na formação de seu gabinete de conselheiros será realizada nos próximos dias. Uma reforma constitucional proposta por Macron, que deveria estar sob análise do Parlamento, teve de ser retirada da pauta e adiada em pelo menos dois meses. 

Sobram questões sem resposta em torno do escândalo: por que um segurança tinha privilégios inexplicáveis – como salário de € 10 mil, apartamento funcional, carro com motorista e até acesso ao ônibus da seleção da França campeã do mundo. E por que tinha credenciais e equipamentos de polícia. Os advogados de Benalla dizem que o ex-assessor – agora demitido – está chocado pelo “uso midiático e político de sua ação no 1.º de Maio”.

A carreira dele permaneceria discreta não fosse um vídeo gravado por um militante do partido de oposição França Insubmissa (esquerda radical), durante um protesto de 1.º de Maio em Paris. Nas imagens, publicadas pelo jornal Le Monde, o segurança aparece vestindo um bracelete da polícia, um rádio e um capacete da tropa de choque e orientando o trabalho de agentes. No trecho divulgado, ele detém um casal de manifestantes, e espanca um dos jovens, já imobilizado por uma chave de braço.

No dia seguinte, 2 de maio, Macron – em viagem oficial à Austrália –, o ministro do Interior, Gérard Collomb, e o chefe de Polícia de Paris, Michel Delpuech, foram informados dos atos. Então o diretor de gabinete do Palácio do Eliseu, Patrick Strzoda, convocou o segurança, que confirmou ser o homem flagrado nos vídeos. A despeito dos crimes cometidos – como o uso impróprio de insígnias da polícia –, o assessor foi apenas suspenso do cargo por “comportamento impróprio” por duas semanas, e não denunciado ao Ministério Público e à Justiça. 

Na semana passada, já com Benalla de volta ao serviço, o caso veio a público com a publicação do vídeo. O que seria apenas uma “derrapagem pessoal” tornou-se um escândalo à medida que o Palácio do Eliseu, o Ministério do Interior e a Chefia de Polícia acobertaram a conduta do segurança.

O MP abriu uma investigação contra Benalla e quatro policiais por crimes de “violência por pessoa encarregada de missão de serviço público”, “usurpação de funções” e “usurpação de insígnias reservadas às autoridades públicas”. Todos foram presos e responderão à Justiça.

Nessa segunda-feira, 23, o ministro do Interior, Gérard Collomb, foi ouvido em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta na Assembleia Nacional. Fiel defensor de Macron, Collomb se eximiu de culpa, atribuindo responsabilidades ao gabinete de assessores e conselheiros do Palácio do Eliseu e à Chefia de Polícia. “Eu ignorava sua condição de conselheiro (de segurança) do presidente”, defendeu-se. Collomb está ameaçado de queda do cargo, o que ampliaria a crise.

Reforma 

Um dos pontos mais controvertidos da reforma constitucional proposta pelo presidente da França, Emmanuel Macron, permite ao presidente da república participar de debates no Congresso. Isso levantou preocupações de que Macron estaria entrando no território parlamentar.

A reunião das duas Casas do Parlamento – o Senado e a Assembleia Nacional – pode ocorrer para debates sobre a revisão da Constituição, que não inclui a participação do presidente, ou para que o chefe do Executivo possa discursar ao Parlamento. 

Tradicionalmente, é papel do primeiro-ministro informar ao Parlamento sobre políticas e decretos do governo. Quando tomou posse, Macron afirmou que gostaria de tornar uma prática discursar ao Parlamento, como são nos discursos do Estado da União nos Estados Unidos.

 

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