Photo by JEAN-FRANCOIS MONIER
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Macron perde ministro que era estrela do governo da França

Ex-apresentador de TV que ocupava Ministério do Meio Ambiente, deixa cargo em transmissão ao vivo e critica influência de lobbies

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 20h45

Em uma surpreendente entrevista de rádio, o ministro do Meio Ambiente da França, Nicolas Hulot, anunciou nesta terça-feira, 28, sua demissão do governo de Emmanuel Macron. Ex-astro de TV, ele havia sido nomeado em maio de 2017, tornando-se um dos símbolos da moderna administração de Macron. Hulot alegou não conseguir avançar a agenda ambiental em razão da força dos lobbies no governo. 

À frente do cargo, Hulot impediu a construção de um aeroporto em uma zona agrícola no noroeste do país, fixou uma data para o fim do uso do herbicida glifosato nas lavouras, mas não conseguiu transformar o compromisso assumido em lei, o que torna a decisão mais frágil. 

Por outro lado, não cumpriu a promessa de reduzir o uso de energia nuclear para 50% do total da matriz francesa até 2025, como desejava. A gota d’água foi na segunda-feira, quando lobistas do setor de caça foram recebidos no Palácio do Eliseu e obtiveram estímulos à prática, e não sua restrição, como o ministro gostaria.

Nesta terça-feira, 28, convidado para uma entrevista na Rádio France Inter, Hulot surpreendeu os apresentadores e o próprio presidente ao anunciar sua demissão no ar. Visivelmente frustrado, o ministro levantou questões sobre os avanços, a seu ver necessários, em questões ambientais, respondendo sempre que eles não haviam se concretizado. 

“Nós começamos a reduzir as emissões de gases estufa? A resposta é não. Os pequenos passos são suficientes para mitigar, inverter ou mesmo a nos adaptar, porque estamos caindo em uma tragédia climática? A resposta é: claro que não.” 

Hulot tentou poupar Macron, de quem se disse amigo, mas afirmou não querer mentir para si mesmo sobre sua capacidade de fazer avançar a pauta ambientalista.

Para o presidente, que foi pego de surpresa, assim como seu primeiro-ministro, Édouard Philippe, a demissão chega no momento de popularidade em queda e de uma agenda política cada vez mais turbulenta. Para reduzir o impacto negativo, Macron elogiou Hulot, afirmando que a decisão é “pessoal” e digna de “um homem livre e convicto”. 

A demissão do ministro expôs a ação de lobbies no interior do Palácio do Eliseu. O maior exemplo ocorreu em 2017. Organizador de um evento que pretendia “redefinir o modelo agrícola” da França, apostando mais na produção de alimentos orgânicos e na redução do uso de defensivos, Hulot perdeu o controle da agenda, que passou às mãos do Ministro da Agricultura, Stéphane Travert. As decisões contrariaram os interesses do ambientalista.

Na terça-feira, 28, Macron voltou ao assunto durante sua viagem à Dinamarca. “O que nós precisamos construir é uma sociedade do século 21, para viver com uma alimentação saudável em um ambiente saudável”, afirmou o presidente, tomando para si as bandeiras de Hulot, mas ponderando: “Este é um combate de longo prazo”.

Tão logo a demissão foi anunciada, os partidos de oposição acusaram o governo de ineficiência na questão ambiental. Pesquisas realizadas na noite de terça-feira, 28, pela emissora FranceInfo indicaram que dois terços dos franceses consideraram a demissão uma perda para o ministério. 

Para Bruno Cautrès, pesquisador do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, a demissão de uma personalidade “insubstituível” é uma notícia extremamente “negativa” para Macron. “Trata-se de uma personalidade de primeiro plano da causa ecológica na França e uma das personalidades mais reconhecidas e mais ouvidas pelos franceses.”

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