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Macron reconhece culpa da França em tortura e morte de comunista na Argélia

Maurice Audin, matemático argelino, foi preso e desapareceu durante a Batalha de Argel, um dos pontos críticos da repressão francesa na ex-colônia; ato simbólico inaugura uma nova etapa na relação da França com seu passado colonial

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2018 | 09h27

PARIS - Em um gesto inédito e histórico, o presidente da França, Emmanuel Macron, reconheceu nesta quinta-feira, 13, a responsabilidade do Estado francês na tortura e morte do militante comunista Maurice Audin, assassinado nos porões da repressão na Argélia

O destino do matemático argelino foi selado no dia 11 de junho de 1957, durante a Batalha de Argel, e até aqui a autoria de sua morte e o envolvimento do Estado e das Forças Armadas não haviam sido oficialmente explicados por nenhum governo francês. 

O ato simbólico inaugura uma nova etapa na relação da França com seu passado colonial no Norte da África. Macron deve visitar ainda nesta quinta a viúva de Audin, Josette Audin, de 87 anos, que vive na cidade de Bagnolet, nos arredores de Paris. 

Antes dele, o ex-presidente socialista François Hollande, que governou entre 2012 e 2017, havia reconhecido apenas que o matemático não havia fugido do cárcere, como explicava a versão oficial das Forças Armadas e do Ministério da Defesa. Seu antecessor no Palácio do Eliseu, Nicolas Sarkozy (Partido Republicanos, direita), não havia respondido às demandas da família por qualquer tipo de reconhecimento.

O reconhecimento de Macron foi confirmada em nota distribuída pelo Palácio do Eliseu nesta quinta. "O presidente da República decidiu que é tempo de a nação cumprir um trabalho de verdade sobre o assunto", justifica o comunicado, que vai além: "Ele reconhece, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e a seguir executado ou torturado até a morte por militares que o haviam prendido em seu domicílio".

Como o jornalista Vladimir Herzog no Brasil, Audin representa uma espécie de símbolo da repressão violenta do Estado francês durante a guerra de liberação da Argélia, ex-colônia francesa na África. Sua prisão arbitrária, seu desaparecimento, as suspeitas de tortura e de morte, foram elencadas durante 61 anos como um exemplo das ações das Forças Armadas do país em uma de suas páginas mais obscuras.

Em fevereiro de 2017, Macron, então candidato ao Palácio do Eliseu, causou imensa polêmica na França ao afirmar, em visita à Argélia, que "a colonização é um crime contra a humanidade". "Foi uma verdadeira barbárie e faz parte do passado que devemos enfrentar, apresentando nossas desculpas a todos aqueles contra quem cometemos esses gestos", afirmou, ponderando a seguir: "Ao mesmo tempo, não devemos jogar todo o passado fora, que não pode ser lamentado porque há uma frase bonita que vale para a Argélia: "A França instalou os direitos humanos na Argélia, mas simplesmente esqueceu-se de lê-los".

O gesto de contrição em nome do Estado francês é o segundo realizado por um presidente no século 21. O primeiro foi feito por Jacques Chirac (União por um Movimento Popular, UMP, centro-direita), que reconheceu a responsabilidade das autoridades francesas na detenção e deportação de judeus franceses durante a ocupação nazista na 2ª Guerra.

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