Francois Mori / AP
Francois Mori / AP

Macron se diz consternado com caso de violência policial contra produtor musical negro em Paris

Michel Zecler foi agredido por três policiais em frente a um estúdio no sábado; os policiais, que disseram que a abordagem ocorreu porque o homem não usava máscara, foram presos para prestar depoimento

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 11h25
Atualizado 28 de novembro de 2020 | 22h12

O presidente da França, Emmanuel Macron, está "muito consternado" com o vídeo que mostra policiais espancando um homem negro em Paris, segundo anunciou seu gabinete nesta sexta-feira, 27. O caso de violência policial contra o produtor musical Michel Zecler reacendeu o debate sobre racismo no país.

Macron se reuniu com o ministro do Interior, Gérald Darmanin, na quinta-feira, 26, e lhe pediu que tome medidas contra os policiais envolvidos - após a reunião, o ministro anunciou a suspensão dos quatro policiais, que foram convocados, nesta sexta-feira, pela Inspetoria Geral da Polícia Nacional (IGPN) e serão presos para interrogatório.

As imagens da agressão, publicadas pelo site Loopsider, mostram a abordagem violenta de três policiais contra Zecler, no sábado passado, na entrada de um estúdio musical em Paris. O vídeo viralizou, gerou indignação da França e foi visualizado mais de 12 milhões de vezes. 

"Eles me chamaram de negro de merda várias vezes enquanto me espancavam", denunciou a vítima, que apresentou queixa na sede da IGPN em Paris. Segundo o boletim de ocorrência, os três policiais chamaram a atenção do produtor musical porque ele não usava máscara. "Quando tentamos interceptá-lo, nos forçou a entrar no prédio", escreveram.

Na filmagem da câmera de segurança, vê-se os três policiais entrando no estúdio. Eles agarram a vítima e, depois, aplicam-lhe socos e chutes, além de golpes com um cassetete. Como se observa nas imagens, o produtor resiste a ser levado e tenta proteger o rosto e o corpo. Na sequência, os policiais tentam forçar a porta e jogam uma granada de gás lacrimogêneo no interior do estúdio.

Zecler disse à agência de notícias Associated Press que se sente "bem" agora que "a verdade foi revelada". “Quero entender por que fui agredido por pessoas que usavam uniforme de policial. Eu quero justiça na verdade, porque acredito na justiça do meu país ”, disse ele. Zecler disse que os oficiais lançaram insultos repetidos contra ele. 

Ele acrescentou que ainda não entende por que os policiais decidiram prendê-lo. Zecler sofreu ferimentos na cabeça, antebraços e pernas. Seu advogado, Hafida El Ali, disse: “Ele perguntou o que eles queriam, se queriam verificar sua identidade. Não paravam de espancá-lo, o vídeo da violência (dentro do estúdio) dura 12 minutos. ”

O advogado de Zecler enfatizou o valor dos vídeos no caso de seu cliente. “Esses vídeos são essenciais porque inicialmente meu cliente estava sendo detido por violência contra pessoas com autoridade pública”, disse El Ali. “Isso é muito sério. A realidade é que, se não tivéssemos esses vídeos, talvez meu cliente estivesse na prisão".

Lei polêmica

Este caso surge em meio ao debate na França sobre o polêmico projeto de lei "segurança global", que reprime a divulgação de imagens de policiais durante suas intervenções. O texto, aprovado pela Assembleia Nacional na terça-feira e que ainda deve ser examinado pelo Senado, gerou polêmica nos últimos dias.

O artigo mais criticado do projeto pune com um ano de prisão e 45 mil euros de multa a divulgação da "imagem do rosto, ou de qualquer outro elemento identificador", dos membros das forças da ordem em ação, quando "atenta" à sua "integridade física, ou psicológica".

Enquanto os sindicatos da polícia, a direita e a extrema direita aprovam o texto, a esquerda e os defensores das liberdades públicas vêem na referida lei uma "ofensa desproporcional" à liberdade de informar e um sinal da deriva autoritária da Presidência de Emmanuel Macron./ AFP e AP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.