Yoan Valat/EFE/EPA
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Macron será capaz de liderar a União Europeia após a aposentadoria de Merkel?; leia análise

Presidente francês adoraria ocupar o lugar da chanceler alemã, mas uma Europa sem uma figura individual central pode ser mais provável

Steven Erlanger, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 05h00

Quando a Alemanha votar, no domingo, e um novo governo for formado no país, a chanceler Angela Merkel deixará o cargo após 16 anos como a figura dominante da política europeia. Esse é o momento pelo qual Emmanuel Macron, o presidente francês, tanto esperou.

A chanceler alemã, apesar de levar crédito por enfrentar múltiplas crises, era criticada havia muito tempo por uma falta de visão estratégica. Macron, cujo estilo mais presunçoso por vezes irritou seus colegas europeus — e Washington — tem apresentado ideias de uma Europa mais independente e integrada, com mais capacidade de se defender e agir em nome de interesses próprios.

Como a “traição" anglo-americana no caso dos submarinos australianos ressaltou, porém, Macron certas vezes possui ambições além de seu alcance. Apesar do vácuo deixado por Merkel, é improvável que surja uma era Macron.

Em vez disso, afirmam analistas, a União Europeia está a caminho de um período prolongado de incerteza e possível fraqueza, ainda que não se veja necessariamente estagnada. Nenhuma figura — nem mesmo Macron nem um novo chanceler alemão — será tão influente quanto Merkel foi enquanto líder forte, confiável e bem preparado, que discretamente gerenciava concessões mútuas e construía consenso entre uma longa lista de colegas mais ruidosos e ideológicos.

Isso levanta a expectativa de uma paralisia ou de uma Europa atolada em seus próprios desafios — a respeito do que fazer diante dos cada vez mais indiferentes Estados Unidos, a respeito de China e Rússia e a respeito de comércio e tecnologia — ou mesmo de uma fragmentação mais perigosa da perene tentativa de unidade do bloco.

E isso significará que Macron, que disputará a reeleição em abril e está absorto nessa campanha incerta, precisará esperar pela formação do governo alemão, o que não deverá ocorrer antes de janeiro, e depois trabalhar proximamente com um chanceler alemão mais fraco.

“Teremos um chanceler alemão fraco, liderando uma coalizão maior e menos unificada”, afirmou Mujtaba Rahman, diretor geral para Europa do Eurasia Group, uma consultoria de risco político. “Um chanceler mais fraco tem menos capacidade de exercer influência na Europa, e então, com a eleição que Macron disputará, os ciclos políticos desses dois países-chave não estarão em sincronia.”

A incerteza deverá durar até as eleições parlamentares francesas, em junho — presumindo que Macron vença.

Macron tem argumentado enfaticamente que a Europa tem de trabalhar mais para proteger seus próprios interesses em um mundo com a China em ascensão e os EUA com foco na Ásia. As autoridades de seu governo já estão tentando preparar o terreno em alguns temas-chave, preparando-se para janeiro, quando a França assumirá a presidência rotativa da União Europeia. Mas dada a probabilidade de demoradas negociações para formar a coalizão de governo na Alemanha, a janela para realizações é apertada.

Macron precisará da ajuda alemã. Ao mesmo tempo que França e Alemanha não podem mais governar a União Europeia da maneira que bem entendem, quando concordam em algum ponto, elas tendem a cooptar o restante dos países do bloco.

Construir uma relação com o novo chanceler alemão, então, mesmo que uma relação mais fraca, será um objetivo principal para Macron. Ele terá de ter cuidado, notou Daniela Schwarzer, diretora executiva para Europa e Eurásia da Open Societies Foundations, para não espantar os alemães.

“A liderança de Macron é disruptiva, e o estilo alemão é mudar as instituições gradualmente”, afirmou ela. “Ambos os lados precisarão pensar bem como tornar possível que cada um responda de maneira construtiva.”

As autoridades francesas compreendem que mudanças substantivas levam tempo e vão querer avançar em iniciativas já em andamento, como a análise a respeito dos interesses europeus chamada de “bússola estratégica”, um aumento modesto mas constante no gasto militar, o desenvolvimento de novas capacidades por meio do novo Fundo Europeu de Defesa e um programa chamado Pesco, que tem objetivo de promover projetos conjuntos e a interoperabilidade europeia.

Após a humilhação do escamoteado acordo dos submarinos, quando a Austrália cancelou subitamente um contrato com a França, preferindo em vez disso um pacto com o Reino Unido e os EUA, muitos dos colegas europeus de Macron estão mais propensos a concordar com ele no sentido de que a Europa tem de ser menos dependente em relação a Washington e gastar um pouco mais com sua própria defesa.

Poucos países da Europa, porém, querem danificar permanentemente os laços com os americanos e a Otan. “A Itália quer uma Europa mais forte, OK, mas dentro da Otan — não pensamos como os franceses em relação a isso”, afirmou Marta Dassu, ex-vice-ministra de Relações Exteriores da Itália e diretora de assuntos europeus do Aspen Institute.

Mario Draghi, o primeiro-ministro italiano, cuja opinião é respeitada em Bruxelas, acredita fortemente nas relações transatlânticas, afirmou ela, acrescentando que “somos mais próximos da Alemanha do que da França, mas sem todas as ambiguidades a respeito de Rússia e China.”

A França também pretende se tornar mais assertiva usando ferramentas econômicas e financeiras que a a Europa já possui, especialmente no comércio e em tecnologia, afirmam as autoridades. O objetivo, afirmam elas, é não pressionar com força ou velocidade demais, mas melhorar a posição da Europa em relação a China e EUA — e tentar encorajar uma cultura confortável com o poder.

Mas os parceiros alemães da França, por sua vez, passarão por um período de incerteza e transição. O novo chanceler alemão deverá conquistar somente um quarto do eleitorado e negociar um pacto de coalizão entre três partidos diferentes. Isso deverá se delongar pelo menos até o Natal, ou além.

O novo chanceler também precisará se aprontar para avançar em temas europeus, que mal vieram à tona na campanha, e construir credibilidade enquanto novato entre os outros 26 líderes do bloco.

“Então é importante agora começar a pensar em conquistas franco-alemãs concretas durante a presidência francesa, que Macron possa usar de maneira positiva em sua campanha”, afirmou Schwarzer. “Porque Berlim não quer nem pensar num cenário em que Macron perca” para a líder de extrema direita Marine Le Pen ou em que eurocéticos como Matteo Salvini prevaleçam na Itália.

Independentemente de quem vença, a política alemã em relação à Europa permanecerá basicamente a mesma: de um país profundamente comprometido com os ideais da UE, cauteloso, que pretende preservar a estabilidade e a unidade do bloco. A verdadeira dúvida é se existe algum líder europeu capaz de exercer a mesma força coesiva de Merkel — e, se não, o que isso significará para o futuro do continente.

“Merkel foi importante para manter a UE unida”, afirmou Ulrich Speck, do German Marshall Fund. “Ela mantinha em mente o interesse de tantos na Europa, especialmente na Europa Central, mas também na Itália, para que todos pudessem se manter a bordo.”

Merkel colocava a União Europeia no centro de sua agenda política, afirmou uma graduada autoridade europeia, que a qualificou como uma guardiã dos verdadeiros valores europeus, disposta a ceder para manter o bloco unido, como evidenciado por seu apoio ao endividamento coletivo, anteriormente inaceitável para os alemães, para financiar o fundo de recuperação do coronavírus.

“Merkel atuou como mediadora quando muitas forças centrífugas enfraqueciam a Europa”, afirmou Thomas Kleine-Brockhoff, chefe do escritório de Berlim do German Marshall Fund. “Não é tão evidente a maneira como o próximo ou próxima chanceler se posicionará e como a Alemanha será posicionada.”

Ainda assim, Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, notou que “quem quer que seja o chanceler, a Alemanha ainda será responsável por mais da metade do comércio entre China e Europa”. A Alemanha é “imensamente mais importante do que os outros países em relação a todos os grandes temas, desde como lidar com a China até a guerra tecnológica e as mudanças climáticas”, afirmou ele.

Isso significa que Macron “sabe que tem de canalizar o poder alemão em apoio à sua visão”, afirmou ele.

Mas as posições de França e Itália também serão cruciais em importantes temas financeiros pendentes, como integração fiscal e bancária, tentar completar o mercado comum e monitorar o fundo de recuperação da pandemia.

A partida de Merkel poderá dar oportunidade para os tipos de mudança que Macron deseja, mesmo em uma versão imensamente diminuta. A paixão de Merkel pelo status quo, argumentam alguns analistas, foi anacrônica num momento em que a Europa enfrentou tantos desafios.

Talvez mais importante seja o iminente debate a respeito de alterar ou não as regras de gastos da Europa, o que, em termos práticos, significa fazer com que os países-membros concordem em gastar mais de maneira geral, da defesa ao meio ambiente.

O problema verdadeiro é que mudanças fundamentais requereriam mudanças nos tratados europeus, afirmou Guntram Wolff, diretor do Bruegel, um instituto de pesquisas de Bruxelas. “Não pode haver uma integração fiscal e militar sub-reptícia”, afirmou ele. “Isso não teria legitimidade e não seria aceito pelos cidadãos.”

Mas os debates da eleição alemã ignoraram esses grandes temas, afirmou ele.

“A notícia triste”, afirmou Wolff, “é que nenhum dos três candidatos a chanceler abordou nada disso na campanha, então, minha expectativa é, basicamente, de um continuado avanço confuso”. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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