REUTERS/Stephane De Sakutin
REUTERS/Stephane De Sakutin

Macron toma posse hoje com pressão de extremistas à direita e à esquerda

Dois partidos radicais, a Frente Nacional e a França Insubmissa, reuniram a maior fatia do voto de classes operárias e somaram 40,88% dos votos no primeiro turno; apoio em eleição parlamentar de junho definirá autonomia de presidente para governar

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 05h00

O novo presidente da França, Emmanuel Macron, toma posse neste domingo, 14, mas enfrentará a oposição mais hostil em décadas. Com os dois partidos mais tradicionais da França em frangalhos, a resistência de republicanos e de socialistas tende a se enfraquecer no Parlamento, segundo projeções para a eleição legislativa de junho. 

Por outro lado, nunca os extremos políticos, liderados pelo grupo França Insubmissa, de esquerda radical, e pela Frente Nacional, de extrema direita, foram tão fortes nos últimos 48 anos. Diante de um governo reformista, sindicatos e grupos anarquistas prometem mobilização das ruas. 

Essa situação começa a ser enfrentada hoje, quando François Hollande cederá seu lugar no Palácio do Eliseu e entregará os códigos do arsenal nuclear a seu ex-ministro da Economia, Macron. As equipes dos dois chegaram a um acordo para que a nova primeira-dama, Brigitte Macron, não acompanhe seu marido na chegada ao palácio, pelo fato de que a namorada de Hollande, Julie Gayet, não aparecerá – como foi praxe durante o mandato. Hollande pediu uma transmissão de poder “simples, clara e amigável”. 

Tão logo assuma o poder, é possível que Macron antecipe da segunda-feira para o próprio domingo a nomeação de seu primeiro-ministro, que será encarregado de montar um gabinete enxuto, com no máximo 15 ministros. À tarde, o presidente deve viajar a Berlim para seu primeiro encontro com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel – uma prática entre os dois países, líderes da União Europeia.

Na volta a Paris, Macron terá de enfrentar os primeiros obstáculos. O mais urgente é disputar a eleição legislativa de 11 e 18 de junho, que definirá a montagem do Parlamento. O risco de uma derrota é alto: se tiver a maior bancada, mas não a maioria, terá de negociar uma coalizão na Assembleia Nacional. 

Se não tiver a maior bancada, terá de ceder cargos a um partido de oposição, o que daria origem a um período de “coabitação” – quando o presidente e o premiê estão em campos opostos. A última vez que isso ocorreu foi entre 1997 e 2002, entre o gaullista Jacques Chirac e o socialista Lionel Jospin, seu premiê e adversário político.

Fortalecidos por desempenhos recordes, dois partidos de extremos, a Frente Nacional, com 7,6 milhões de votos, e a França Insubmissa, com 7 milhões, somaram 40,88% dos votos no primeiro turno, reunindo a maior fatia do voto de classes operárias e populares. Em comum, os dois partidos antagônicos têm a oposição frontal a Macron. 

“Desde 1969, quando o comunista Jacques Duclos teve 21,25% dos votos na eleição presidencial, não víamos uma força de esquerda radical com tanta penetração social quanto a França Insubmissa”, disse ao Estado o sociólogo e filósofo Michael Löwy, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica e professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais.

A realidade que vale para a esquerda radical vale também para a extrema direita. Nunca antes a FN teve tanto apoio. A dificuldade dos dois partidos, porém, é converter seu eleitorado em bancadas numerosas no Parlamento, em razão do voto distrital em dois turnos, que favorece as coalizões moderadas.

Se os dois partidos não elegerem muitos deputados, e a maior oposição parlamentar for de direita, a rua tende a falar alto diante das reformas de Macron. Em 2015 e 2016, sindicatos e associações mostraram a força contra duas leis liberalizantes mais tênues do que a proposta do novo presidente. 

Se vencer o desafio da eleição parlamentar, Macron enviará um projeto de reforma da legislação trabalhista, propondo o modelo escandinavo, que facilita demissões e contratações – o que certamente irritaria sindicatos como a Confederação-Geral do Trabalho (CGT) e a Força Operári. “Estamos em uma dinâmica reivindicativa ofensiva contra todo projeto regressivo”, disse Philippe Martinez, secretário-geral da CGT.

Além da resistência da esquerda radical, o método que o presidente pretende usar para aprovar as medidas – uma espécie de decreto – enfrenta a resistência até de centrais sindicais moderadas, como a Confederação Francesa Democrática do Trabalho, a maior do país. Para Bruno Cautrès, do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, a resistência nas ruas será forte. “Haverá uma oposição de esquerda que se organizará muito rapidamente”, disse o pesquisador.

 

Mais conteúdo sobre:
FrançaEmmanuel Macron

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.