Adrian Steirn/AP/Arquivo
Adrian Steirn/AP/Arquivo

Madiba, o pensador

Não há quem não ficasse de pernas bambas ao se deparar com ele; de fala mansa, tinha doçura na voz, mas era firme no que dizia

Martinho da Vila* - O Estado de S. Paulo,

06 de dezembro de 2013 | 00h54

Palavras de mestre: "Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável", disse Nelson Mandela em um de seus poéticos discursos. Na organização que abraçou, o Congresso Nacional Africano, criou a Lança da Nação, grupamento armado para lutar contra o apartheid. Também incentivou a formação do Amandla, uma vertente de guerrilheiros culturais. O Amandla participou do evento Kizomba, realizado no Pavilhão de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, com uma delegação composta por cantores, bailarinos, atores, músicos, poetas e intelectuais, para falar de Nelson Rolihlah Mandela, chamado na intimidade de Madiba.

Naqueles tempos, o maior estadista africano estava recluso e em vários países do mundo eram organizados eventos de apoio ao Mandela, com a participação de artistas populares. Em 1985, representantes de seguimentos do Movimento Negro de São Paulo me convocaram para coordenar umas ações antiapartheid e fizemos uma passeata que culminou com um manifesto em frente ao consulado da África do Sul. Recebemos o apoio do reverendo Desmond Tutu, com quem entramos em contato e ele nos deu uma entrevista, diretamente de Johannesburgo, pela Rádio Excelsior, no programa Balancê, apresentado por Osmar Santos.

Realizamos também uma manifestação suprapartidária na Praça da Sé, com um showmício que culminou com um ato ecumênico comandado pelo padre Batista, pároco negro, com a participação de sacerdotes freiras, babalorixás, ialorixás e pastores protestantes. Foi emocionante quando o arcebispo Don Evaristo Arns deu as mãos a uma mãe de santo e a um rabino, com todos de braços para o alto.

Ao sair da prisão, o estadista veio ao Brasil agradecer o apoio. Militantes do movimento negro carioca e paulista fizeram uma bela recepção para ele e a Winnie, sua mulher na ocasião. Querido e admirado por suas atitudes, não há quem não ficasse de pernas bambas ao se deparar com o grande líder africano, apesar de não causar a menor apreensão o seu penetrante olhar. De fala mansa, Mandela tinha doçura na voz, mas era firme no que dizia. Em várias ocasiões, com base na sua própria experiência, enfatizou: "Não há nada melhor do que a liberdade e deve-se lutar por ela, com medo ou sem. Quando o sangue começa a ferver, é tolice desligar o coração. Bravo não é quem não tem medo, é quem o vence. Quando nos libertarmos do nosso próprio medo, nossa presença, automaticamente, libertará outros."

Vencedor, bem sucedido, poderia ter sido presidente vitalício, mas não quis se perpetuar no poder e afirmou: "Enquanto permitimos que nossa luz brilhe, nós, inconscientemente, damos permissão a outros para fazerem o mesmo." Tolerante como um monge, não tinha espírito vingativo, sempre soube perdoar. "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, sua origem ou religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, mas jamais extinta."

Desprovido de vaidades banais, sempre foi fino no vestir, com roupas como as de sua gente e considerava a todos como seus iguais, embora tenha sido um ser especial. Demonstrava alegria ao balançar o corpo ao som de qualquer música negra dançante. "A beleza curiosa da música africana é que ela anima mesmo quando nos conta uma história triste. Você pode ser pobre, ter apenas uma casa desmantelada, pode ter perdido o emprego, mas a canção lhe dá esperança. A música africana versa sempre sobre as aspirações do povo." Um dos meus sonhos de carnaval é desenvolver um enredo e desfilar com um belo samba em homenagem a Nelson Mandela, meu grande ídolo.

*MARTINHO DA VILA É SAMBISTA, COMPOSITOR, INTÉRPRETE E AMIGO DE NELSON MANDELA

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