Madri busca vantagem com mediação em Cuba

Governo espanhol tenta garantir interesses econômicos na ilha e ampliar influência na América Latina

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

A liberdade dos 11 presos políticos cubanos, após sete anos de cárcere em Havana, é celebrada na Espanha como uma "vitória diplomática" do governo de José Luis Rodríguez Zapatero. Mas a libertação dos dissidentes é só o último episódio de uma reaproximação iniciada em 2004, que busca fortalecer os interesses políticos e econômicos da Espanha e da Europa na América Latina.

Os interesses em Cuba são tratados com discrição pelo Ministério das Relações Exteriores da Espanha. A prioridade oficial é obter avanços no respeito aos direitos humanos. Nessa política se enquadraria a libertação progressiva de 52 dissidentes. No longo prazo, segundo o chanceler Miguel Ángel Moratinos, o objetivo é a abertura democrática.

Entretanto, Moratinos reconhece que o governo de Zapatero também está velando pelos interesses espanhóis e europeus em Cuba e na América Latina. E, entre esses interesses, o econômico tem peso crescente. Para a Espanha, Cuba é um país em hibernação, com alta qualidade de capital humano, decorrente do nível educacional de excelência.

O ex-ministro da Economia Carlos Solchaga acredita que Cuba está pronta e aguarda investimentos em massa. Madri se consolidaria ainda mais na América Latina, região cujo Produto Interno Bruto (PIB) cresce em média 5% ao ano, ritmo cinco vezes maior do que na Europa.

O problema, diz Solchaga, é que o caminho para a abertura será longo. "É extremamente difícil transformar uma economia socializada em economia de mercado", adverte.

Cuba se tornaria um catalisador de investimentos espanhóis, explica o economista Alfredo Arahuetes, da Universidade Pontifícia Comillas de Madri. "As empresas espanholas criaram uma espécie de diplomacia econômica com a ilha", explica.

Essas relações fazem de Cuba um dos principais parceiros comerciais da Espanha na América Latina, atrás de potências regionais, como Brasil, Argentina, México, Venezuela e Chile. Investimentos diretos no país só não são maiores em razão das leis americanas que impõem sanções a quem fura o embargo contra o regime.

Oportunismo. A estratégia para obter vantagens econômicas desperta críticas externas e internas. O ex-chanceler do México Jorge Castañeda foi duro contra Zapatero em entrevista ao jornal El País. "A posição da Espanha em Cuba e na Venezuela é vergonhosa, cínica, oportunista, indigna de um país como a Espanha e de um governo socialista", acusou o diplomata.

No plano interno, o líder do Partido Popular (PP), o opositor Mariano Rajoy, embora tenha elogiado a libertação dos dissidentes, não se cansa de criticar a aproximação política com Cuba.

PARA ENTENDER

Status de asilo daria caráter político a grupo

Na quinta-feira, os dissidentes cubanos reuniram a imprensa em Madri para reivindicar o status de "asilados políticos", e não de imigrantes, condição em que chegaram. Para a Espanha, a questão é delicada. O ex-presidente José Maria Aznar usou a concessão de asilos políticos para provocar Havana. Está prevista para terça-feira a chegada a Madri de outros nove dissidentes cubanos e cerca de 50 parentes. Ontem, o governo espanhol ofereceu uma "proteção internacional"ao grupo, que passará a ter 20 dissidentes. Ela garantiria os benefícios de um perseguido político, mas lhes permitiria voltar a Cuba algum dia. / A.N.

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