Madri diz esperar fim de embargo a Cuba

Chanceler espanhol afirma que libertação de dissidentes deve levar à[br]mudanças na restrição imposta ao regime cubano pela UE e pelos EUA

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, voltou a defender ontem o fim da "posição comum", o embargo da União Europeia ao regime castrista. O pedido foi feito no dia em que o 12.º dissidente exilado pelo regime de Cuba chegou a Madri, marcando a retomada do processo de libertação de 52 presos políticos iniciado há dez dias.

O novo apelo de Moratinos pelo fim ou por mudanças na posição comum foi feito ontem, em Madri. Segundo o chanceler espanhol, ao levantar o bloqueio, a União Europeia abriria as portas para a aproximação entre Washington e Havana. "Levantaremos a posição comum da UE, e isso terá consequências políticas nas relações entre os EUA e Cuba, como o levantamento do bloqueio", afirmou, referindo-se ao embargo.

Moratinos saudou o anúncio feito na terça-feira, em Genebra, pelo presidente do Parlamento cubano, Ricardo Alarcón, de que a libertação de presos políticos irá além do grupo de 52 remanescentes da Primavera Negra, a onda de repressão de 2003, e contemplará todos que "não tiverem sangue nas mãos".

Segundo o chefe da diplomacia espanhola, serão soltos até mesmo os que não queiram partir ao exílio.

O governo espanhol também assegurou que concederá aos exilados "o melhor status possível" no país, mas lhes ofereceu apenas o sistema de Proteção Internacional Assistida, que garante direitos especiais de imigração, como a obtenção de autorização de trabalho e residência permanente em um horizonte de três meses e a opção pela nacionalidade espanhola em dois anos. Esse status, porém, não é o desejado pelos exilados, que reivindicam o reconhecimento como asilados políticos.

"Em nossos passaportes, está escrito "saída definitiva", somos exilados políticos", disse ao Estado o dissidente libertado Mijail Bárzaga. A questão é delicada para Madri, que teria assumido o compromisso com Cuba de não reconhecer a condição dos exilados como ex-presos políticos.

Na falta de entendimento com o governo espanhol, os dissidentes que ainda estão em Cuba receberam um aceno dos EUA. Segundo a Seção de Interesses dos EUA em Havana informou aos parentes de presos, os detentos que venham a ser libertados poderão ser reconhecidos como refugiados por Washington. O trâmite burocrático para a partida de presos para os EUA, porém, pode ser bem mais lento e poderia perdurar por mais de um ano. Na Europa, a informação é interpretada como uma pressão dos EUA para que os presos políticos não aceitem a transferência para a Espanha. Assim, a pressão pelo fim da posição comum acabaria enfraquecida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.