EFE/Emilio Naranjo
EFE/Emilio Naranjo

Madri usa força para reprimir plebiscito na Catalunha 

Com autorização da Justiça, governo de Mariano Rajoy prende 14 pessoas acusadas de organizarem a consulta popular sobre a independência da região de Barcelona; ação é realizada em nome da "legalidade" contra secessionistas    

Andrei Netto, Correspondente / Paris , O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 18h10

O governo de Mariano Rajoy ordenou nesta quarta-feira, 20, a prisão de 14 pessoas acusadas de organizarem o plebiscito sobre a independência da Catalunha, marcado para o dia 1º. A ação policial, de amplitude e natureza inéditas desde o fim da ditadura de Francisco Franco, entre 1939 e 1975, detonou a tensão entre Madri e Barcelona porque a maior parte dos presos eram membros do governo catalão. O caso representa um marco na luta dos independentistas, que acusaram o governo de Madri de usar a força para suspender, na prática, a autonomia regional. 

O plebiscito é considerado ilegal pelo Executivo e pelo Tribunal Supremo da Espanha. Rajoy também se recusa a negociar a realização de qualquer tipo de consulta popular oficial sobre a soberania da região, definida pelo primeiro-ministro como "deriva separatista e inconstitucional". Entre os objetos apreendidos durante a operação estão 1,5 milhão de cédulas e material eleitoral, além de equipamentos de informática utilizados para a eleição.

Com a ação policial, o governo central tenta desmontar a administração catalã, já que 12 dos detidos são detentores de altos postos na Catalunha e seriam responsáveis pela organização do plebiscito. Entre os presos estão Oriol Junqueras, ministro catalão da Economia, tido como um dos organizadores da consulta popular.

Para justificar sua iniciativa, Rajoy realizou um pronunciamento na noite de hoje (hora local), após reuniões com líderes partidários do Ciudadanos (centro), Albert Rivera, e do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, esquerda), Pedro Sánchez. Mais cedo, argumentou que a operação policial foi necessária. "Ela foi ordenada após a decisão de juízes, a fim de que a legalidade seja respeitada", justificou. O premiê ameaçou ainda cortar os salários do funcionários públicos da Catalunha que persistam na "desobediência".

A tensão em torno do plebiscito vinha crescendo desde o dia 7, quando o Parlamento da Catalunha aprovou as regras da consulta popular, que abrirá as portas para a declaração de independência da República Independente da Catalunha, em secessão ao reino da Espanha. Essa sessão do Parlamento foi definida pelo governo de Rajoy como um "ataque à democracia". 

Hoje, em resposta à operação policial, o presidente da região da Catalunha, Carles Puigdemont, acusou o premiê espanhol de totalitarismo. "O Estado espanhol suspendeu de facto o autogoverno da Catalunha e aplicou de facto o Estado de exceção", acusou, falando no Palácio da Generalitat, onde prometeu uma "resposta democrática" à ação "totalitária e antidemocrática" de Madri. "Em 1º de outubro, sairemos de casa, levaremos o título de eleitor e o utilizaremos", desafiou.

Nas ruas de Barcelona, a ação ordenada por Rajoy provocou indignação e levou dezenas de milhares de pessoas à praça pública para protestar contra a "onda repressiva". Os secessionistas são avaliados em cerca de 50% dos 7,5 milhões de catalães, mas sua capacidade de mobilização é muito maior do que a dos unionistas.

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Em Madri, onde uma pequena multidão de republicanos também se reuniu na Praça do Sol, as reações no meio político oscilaram entre o apoio prestado pela direção do Ciudadanos, quarta força política do país, às críticas da oposição de esquerda. O líder do PSOE voltou a defender uma reforma constitucional para adoção do federalismo – o que daria à Catalunha a condição de Estado-membro da Espanha. 

Já o líder do Podemos (esquerda radical), Pablo Iglesias, foi além e acusou Rajoy de ter entrado em uma deriva repressora, ao mesmo tempo em que lidera o Partido Popular (PP, direita), envolvido em diversos escândalos de corrupção. "Não quero que haja na Espanha prisioneiros políticos", disse o cientista político, que criticou ainda "o partido político corrompido" que "parasita as instituições". 

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