Maduro acusa Kerry de intervenção

'Tire os olhos da Venezuela', responde chavista à exigência do secretário de Estado dos EUA de que votos de domingo sejam recontados

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h01

O presidente eleito venezuelano, Nicolás Maduro, respondeu ontem às declarações do secretário de Estado americano, John Kerry, que pediu à Venezuela que atendesse ao pedido de recontagem de votos feito pela oposição ao chavismo. Kerry disse que o país ainda vai "avaliar" se o resultado é legítimo e se reconhece o governo do chavista. "Achamos que deve haver recontagem", afirmou.

O herdeiro político de Hugo Chávez reagiu às afirmações. "Tire os olhos da Venezuela, John Kerry. Fora daqui. Já basta de intervencionismo", gritou Maduro durante uma reunião com governadores para apresentar um plano de base para seu governo.

O pedido formal de auditoria nos resultados da eleição de domingo foi entregue ontem pelo comando de campanha opositor ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE). O candidato derrotado, Henrique Capriles, havia convocado uma marcha de protesto até a sede da entidade, no centro da capital, mas desmobilizou sua militância quando o governo anunciou que impediria a realização da passeata.

Derrotados por uma margem inferior a 2 pontos porcentuais, os opositores exigem que os comprovantes de votação em papel, depositados em urnas após o voto eletrônico, sejam todos revistos manualmente.

A presidente do Tribunal Superior de Justiça venezuelano, Luisa Estella Morales, declarou ontem que "não existe" a possibilidade de uma recontagem manual dos votos. Estella disse que Capriles "engana a população" confundindo auditoria com recontagem.

A Igreja Católica venezuelana também pediu que Maduro aceite a recontagem de votos. Em comunicado, a Conferência Episcopal do país disse que o governo deve aceitar a auditoria "pela paz social e política".

Pressão. Desde os distúrbios da segunda-feira, a Assembleia Nacional da Venezuela vive um clima de "caça às bruxas", nas palavras de um deputado que falou ao Estado sob condição de anonimato.

O presidente da Comissão Permanente da Controladoria da Assembleia, Pedro Carreño, pediu ontem que jornalistas e veículos de imprensa que "estimularam a violência" sejam punidos.

Carreño citou nominalmente o jornalista venezuelano Nelson Bocaranda. Mostrando um pequeno cartaz com a reprodução de uma frase dita pelo radialista no Twitter, o parlamentar o acusou de insuflar ataques contra centros de saúde do governo.

O presidente da Assembleia, o chavista Diosdado Cabello, destituiu ontem de seus postos alguns deputados de oposição que eram presidentes de comissões na Casa. A deputada Dinorah Figueroa, que presidia a Comissão Permanente da Família, exibiu reproduções do ofício assinado pelo presidente da Assembleia. Dinorah acusou Cabello de "fascismo". Desde a noite da terça-feira, Cabello também vem impedindo que legisladores da oposição se manifestem no plenário. Cabello foi o primeiro chavista a falar em uma investigação penal contra Capriles e outros integrantes da oposição a respeito dos distúrbios e mortes do início da semana.

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