Maduro anuncia prisão de empresários

Lucros 'inescrupulosos' justificam, segundo chavista, medida que atingiu 100 comerciantes; Estado subsidiará preços de microempresas

CARACAS, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2013 | 02h02

Mais de cem empresários foram presos esta semana na "campanha contra a manipulação de preços", anunciou ontem o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Segundo Caracas, as empresas dos detidos cobravam valores "inescrupulosos" sobre bens de consumo, aumentando em mais de 1.000% os preços.

"Temos mais de cem burgueses atrás das grades neste momento", afirmou o chavista, em discurso transmitido pela televisão estatal. Maduro também reforçou a promessa de baixar decretos que regulem os ganhos no comércio, estipulando em até 30% a margem de lucro máxima permitida. Essa medida deve ser adotada quando a Lei Habilitante - que amplia seus poderes - for aprovada.

As declarações foram feitas horas depois de a Assembleia Nacional ter aprovado, em primeira votação, o pedido de Lei Habilitante feito pelo presidente, o que permitirá que ele legisle durante 12 meses sobre temas como lavagem de dinheiro, fuga de divisas e fortalecimento do sistema financeiro.

"Não é hora de afrouxar, é hora de apertar a ofensiva e vamos a fundo. Temos de chegar até a raiz da guerra econômica nesta batalha pela Venezuela", disse.

Outra proposta apresentada pelo presidente é a de subsidiar o preço cobrado do consumidor por pequenos comerciantes que tenham sido "prejudicados pela especulação" dos grandes empresários. "Os pequenos comerciantes que nos demonstrem que foram roubados por atacadistas poderão contar com o apoio do Fundo Nacional de Estabilização, que eu criei. Dessa forma, vocês baixarão os preços e o governo pagará por isso. Vou pagar para que mantenham os preços baixos", disse.

Milhares de venezuelanos fizeram longas filas esta semana diante das lojas de departamento do país para aproveitar a redução de até 70% no valor de eletroeletrônicos imposta pelo governo por decreto - parte da "ofensiva econômica" de Maduro para combater a inflação de 54% nos últimos 12 meses.

Além dos 100 empresários, pelo menos outras 50 pessoas foram presas por "usura, especulação e alteração da ordem pública" desde o início do controle de preços determinado pelo governo, informou, em nota, o ministro do Interior e da Justiça, Miguel Rodríguez Torres. Ontem, Maduro também ordenou que a Goodyear fosse fiscalizada, depois de considerar insuficiente a redução de 15% dos preços proposta pela empresa, qualificando a inflação venezuelana como algo "induzido".

Para analistas, no entanto, as decisões do presidente devem ter mais efeito político do que econômico. "Os anúncios foram centrados no aumento do controle do Estado. É pouco provável que resolvam os problemas de inflação e desabastecimento", afirmou, em nota, o banco de investimentos Barclays. "Mesmo que sejam tomadas medidas efetivas sobre as consequências, essa crise não será resolvida se o governo não tratar da origem do problema", disse o analista político Luis Vicente León.

Para Maduro, porém, os superpoderes concedidos pelos deputados são cruciais. Antes de entrar em vigor, a Lei Habilitante precisa passar por uma segunda aprovação na Assembleia. Segundo o presidente da Casa, o chavista Diosdado Cabello, a próxima votação está marcada para terça-feira. Para o mesmo dia está prevista uma marcha ao Palácio de Miraflores para apoiar a concessão de poderes especiais ao presidente.

A ausência de seis membros da oposição durante a votação na quinta-feira também foi explorada pelos governistas. O deputado opositor Alfonso Marquina disse que a falta de tempo e dificuldade de locomoção foram os principais fatores que impediram a participação. "A convocação chegou aos deputados no fim da tarde de quarta-feira para uma sessão na manhã de quinta-feira. Alguns já estavam em suas regiões e não conseguiram retornar a Caracas", disse. / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.