Maduro corta envio de petróleo a aliados

Crise faz Caracas diminuir remessas e obriga países a buscar novos fornecedores

MARIANNA PÁRRAGA, BRIAN ELLSWORTH, REUTERS / CARACAS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2014 | 02h01

O envio de petróleo e de combustível da Venezuela para países aliados atingiu seu ponto mais baixo nos últimos cinco anos, principalmente em razão do enfraquecimento da economia venezuelana e de sua capacidade de manter os acordos que o ex-presidente Hugo Chávez firmou para expandir sua influência regional e reduzir os custos de energia para governos que adotassem a rede bolivariana.

Em 2013, Caracas enviou 243 mil barris por dia para nações da América Latina e do Caribe, uma queda de 11% com relação ao ano anterior, o nível mais baixo desde 2007, de acordo com dados da empresa estatal de petróleo PDVSA.

Crise. Vários fatores estão por trás do declínio: a produção de petróleo mais baixa e o crescimento econômico fraco do país, uma rede de refinarias que não conseguiu se recuperar totalmente de um acidente grave em 2012 e acordos de financiamento com a China, que desviaram grande parte da produção de petróleo venezuelano para a Ásia. Por isso, alguns dos velhos aliados, que se beneficiavam do petróleo barato, já estão sendo forçados a recorrer a outras fontes.

Nos últimos oito meses, vários países, da Jamaica à Argentina, que assinaram pactos de fornecimento com a Venezuela, compraram cerca de 140 carregamentos de petróleo bruto, componentes e combustível para transporte e geração de energia no mercado livre, de acordo com informações obtidas pela Reuters.

Mais de dois terços das compras foram para o Equador, um dos principais aliados da Venezuela. Esse tipo de negociação acaba saindo muito mais cara do que o petróleo importado por meio de acordos de longo prazo.

Antes de morrer, em março de 2013, Chávez usou a riqueza petrolífera do país para ajudar aliados e estender sua influência política na América Latina e no Caribe. O acordo que criou a Petrocaribe, em 2005, exigia que os membros do pacto pagassem em dinheiro apenas 40% de cada remessa e permitia que o resto fosse financiado em 25 anos a juros baixos ou que o pagamento fosse realizado com produtos variados, que iam de sacas de arroz a calças jeans.

No total, 21 países firmaram tipos diferentes de pactos de fornecimento de petróleo com a Venezuela. Entre os acordos mais importantes estão a Petrocaribe e o Acordo Energético de Caracas. No entanto, os problemas econômicos crescentes do país obrigaram o governo chavista de Nicolás Maduro a rever esses programas.

Desde 2010, a Venezuela tem comprado combustível de outros países para cumprir suas cotas nos acordos bilaterais. A partir de então, a capacidade de produção da PDVSA diminuiu ainda mais, enfraquecendo a saúde financeira da estatal e limitando a capacidade de Maduro manter a mão estendida para seus velhos aliados regionais.

"A Venezuela está importando muito combustível para manter sua demanda interna. Portanto, continuar comprando grandes quantidades para ajudar a esses países é insustentável", afirmou um alto executivo de uma empresa que fornece combustível para a Venezuela.

Enquanto a Venezuela tem dificuldades para cumprir acordos comerciais, os EUA, impulsionados pela extração de gás natural, têm uma grande janela de oportunidades para conquistar novos mercados e retomar sua influência na América Latina e no Caribe.

O vice-presidente americano, Joe Biden, anunciou no mês passado a Iniciativa de Segurança Energética do Caribe, um plano para reduzir a dependência da região do "alto custo da importação de combustível e de eletricidade", prometendo financiamento para projetos de geração de energia renovável.

Além disso, a Overseas Private Investment Corporation, uma agência de desenvolvimento do governo americano, negocia com investidores interessados em implementar novos projetos de energia no Caribe, de acordo com um alto funcionário do Departamento de Estado.

Bolivarianos. Para manter o abastecimento, os aliados tiveram de recorrer a outros fornecedores. A companhia petrolífera estatal argentina YPF vem comprando no mercado aberto uma parte significativa de suas necessidades de combustível e diesel para produzir energia.

O Equador também comprou mais de 70 carregamentos de nafta e 30 de diesel este ano, após um acordo de fornecimento de petróleo com a Venezuela ser reduzido. A Bolívia também enfrenta dificuldades. O país importava a maior parte de seu diesel dos venezuelanos, mas agora o Chile já é seu principal fornecedor.

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