Palácio Miraflores / Reuters
Palácio Miraflores / Reuters

Maduro diz que armará 1,6 milhão de milicianos, a maioria sem treinamento

Discurso do chavista foi feito menos de uma semana após ele acusar os EUA de planejarem invadir o país; ‘iremos armar a milícia bolivariana até os dentes’, disse o presidente

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2018 | 08h40
Atualizado 18 Dezembro 2018 | 19h18

CARACAS -  Menos de uma semana depois de ter denunciado um suposto plano para derrubá-lo e assassiná-lo, presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fez novas declarações agressivas contra os Estados Unidos e os vizinhos Brasil e Colômbia. Alegando estar defendendo o território venezuelano, Maduro disse nesta segunda-feira, 17, que a milícia civil do país agora tem 1,6 milhão de integrantes, e que vai “armá-los até os dentes”.

Maduro ainda disse que, no caso de uma invasão do inimigo “imperialista”, as tropas agressoras “não sairiam vivas” do território venezuelano. “Vamos defender nossa pátria dos imperialistas, oligarcas e traidores… estejam em Bogotá ou em Brasília”, insistiu Maduro ao falar para milicianos em Caracas.

O número é três vezes maior do que os “400 mil” membros da A Milícia Nacional Bolivariana que o regime havia informado em abril. Um dos mais polêmicos projetos de Hugo Chávez na área de segurança foi a criação de milícias armadas, encarregadas de proteger o governo. Elas contam com homens e mulheres, civis, que portam armas de uso exclusivo das Forças Armadas.

As milícias são organizadas de forma semelhante às brasileiras, alimentadas por “contribuições” de moradores, regulação de serviços e captura de armas obtidas em confrontos com o narcotráfico. A exemplo do que ocorre no Brasil, pesam denúncias de extorsão contra as milícias, consideradas pela oposição grupos paramilitares. 

Maduro não deixou claro como conseguiu triplicar o número de integrantes das milícias em oito meses, mas a maioria dos analistas acredita que se trata de um número inflado. “Maduro está usando o contingente de pessoas dispostas a pegar em armas para defender o chavismo e os tratando como soldados treinados, o que não é o caso”, afirma Benigno Alarcón, analista de segurança e especialista em Defesa e conflitos na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas. “Ao menos 60% dessas pessoas não êm treinamento militar.”

Segundo o jornal venezuelano El Nacional, Maduro pediu aos militares venezuelanos para desenvolver planos preventivas ante “qualquer movimento estranho de grupos paramilitares ou infiltrados” e esforços para “defender cada centímetro do território dos inimigos do país”.

Com a posse do presidente eleito, Jair Bolsonaro, se aproximando, as tensões entre Brasil e Venezuela também aumentam. A aproximação com os EUA faz o chavismo se sentir ameaçado. Na semana passada, Maduro chegou a dizer que o conselheiro de segurança nacional dos EUA, John Bolton, passou instruções a Bolsonaro sobre um plano para derrubá-lo quando os dois se encontraram no Rio de Janeiro, em 29 de novembro. 

“O povo deve aprender, como fez o povo do Vietnã, a defender sua terra com uma faca, com uma pedra, com um porrete, com um bastão, com o próprio corpo, com o que for necessário”, afirmou Maduro. 

No último fim de semana, foram publicados na internet vídeos de treinamento de civis sem uniformes e de milicianos. Eles são vistos fazendo exercícios físicos e de tiro, inclusive idosos em idade avançada. Nas redes sociais, muitos ridicularizaram e compararam a imagem com a dos soldados dos Estados Unidos, a força militar mais poderosa do mundo.

Os milicianos recebem do governo apenas as roupas: um chapéu, botas pretas e um uniforme militar verde com muitos bolsos. Todos os sábados recebem instrução militar, prática e teórica por cinco ou seis horas. Cada batalhão pode ser composto por até 300 voluntários. Os que trabalham há mais tempo na milícia recebem seguro saúde e um salário mínimo.

“Não me importa o que diz o Twitter, quero defender meu país. Vamos dar a nossa vida”, disse à BBC Edith, durante uma sessão de treinamento em abril. “Deixei a covardia para trás e vou a luta.” Julio Pérez, um reservista de 52 anos com experiência militar disse à BBC em abril: “Estamos dispostos a defender as conquistas de 18 anos”. / RODRIGO TURRER COM REUTERS E AFP

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