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Maduro dolariza turismo em destinos na Venezuela

Serviços em algumas praias e ilhas deverão ser pagos em ‘moeda internacional’ ou em criptomoedas

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2018 | 19h30

CARACAS - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, decretou a dolarização do turismo nos principais destinos do país. Na noite de segunda-feira, Maduro anunciou que todos os pagamentos de “serviços turísticos” nas ilhas Margarita e La Tortuga, no arquipélago de Los Roques e em praias do Estado de Falcón deverão ser feitos em “moeda internacional ou em criptomoeda”. 

Na prática, a medida significa que a maioria dos venezuelanos não poderá frequentar os locais, já que poucos têm acesso a divisas e o salário mínimo, em bolívares, não passa de US$ 6 no câmbio paralelo. “Os pagamentos deverão ser feitos para todos os serviços: avião, hotel, barco, comida e presentes”, disse Maduro, no encerramento de uma feira de turismo em Caracas. “Todas estas regiões serão zonas econômicas especiais, onde circulará o petro, vinculada a moedas internacionais”, afirmou o presidente. 

O petro é a criptomoeda criada por Maduro que sofreu um duro golpe quando o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva, em janeiro, proibindo que passe pelo sistema financeiro americano “qualquer transação” feita pela Venezuela. 

Segundo representantes do setor de turismo, a taxa de ocupação dos hotéis na Venezuela está abaixo dos 40%. “Há cada vez menos voos, quartos de hotel e as estradas estão sucateadas”, disse Reinaldo Pulido, vice-presidente da Associação Venezuelana de Empresas de Turismo. 

Dolarização 

A medida acelera o processo de dolarização da economia. Para o economista Luis Oliveros, pagar bens e serviços com dólar será cada vez mais comum. “Aos poucos, a economia vai se dolarizando. É normal em países com hiperinflação.” 

A inflação na Venezuela tem levado os cidadãos a utilizar o dólar também para as operações comerciais e poupança, enquanto a moeda local, o bolívar, perde cada vez mais espaço diante do poder da moeda americana. Os venezuelanos usam o dólar para a compra e venda de bens imóveis e veículos, mas também para transações que envolvam artigos eletrônicos, eletrodomésticos e até roupas e calçados de segunda mão. 

De acordo com o deputado opositor Ángel Alvarado, o fenômeno pode ser considerado uma "dolarização de fato", ainda que o país caribenho esteja muito longe de ver substituída em termos legais sua moeda pela americana. "O bolívar perde valor tão rápido que as pessoas tentam se proteger", disse o membro da Comissão de Economia e Finanças da Assembleia Nacional. 

A Venezuela passa pela pior crise econômica de sua história contemporânea, com escassez generalizada e hiperinflação, um indicador que o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê fechar em 2.500.000% este ano. 

Segundo os cálculos do Parlamento, de maioria opositora, os preços aumentam mais de 3% ao dia, ainda que o governo de Nicolás Maduro tenha prometido há três meses acabar com essas. 

Alvarado diz acreditar que o pacote de Maduro não estabilizará a economia. Pelo contrário, suas decisões têm alimentado a hiperinflação que castiga o país, levando os venezuelanos a preferir o uso do dólar para o comércio e para poupar. Esse fenômeno é "tolerado" diante da incapacidade do governo chavista de peseguir a milhões de infratores, que incluem seus simpatizantes. 

A administradora de um edifício do centro de Caracas revelou à agência EFE, sob condição de anonimato, que há meses os aluguéis dos comericantes locais são cobrados em dólares. 

"Não é possível fazer negociações de seis meses, um ano, em bolívares, porque a desvalorização de deixa logo sem dinheiro para cobrir o custo de manutenção de um edifício, que é muito alto", disse a mulher. 

O mesmo ocorre com os aluguéis de residência em Caracas e em outras regiões do país, incluindo nos locais mais remotos. O economista Jesús Casique alerta que o bolívar é a única moeda de curso legal no país sul-americano e quem se arriscar a usar outra moeda estará cometendo delito. Ele explicou que os venezuelanos começaram a utilizar dólares no lugar do bolívar porque a moeda "tem perdido valor" de forma sustentada nos últimos quatro anos, um fenômeno que se intensificou quando o país entrou em hiperinflação em novembro de 2017. 

"Essas são as distorções do Estado venezuelano, porque o sistema de preços está destruído e não se sabe na Venezuela o que é caro e o que é barato" acrescentou. 

Diferentemente de Alvarado, Casique diz não acreditar que a Venezuela passe por um processo de dolarização, ainda que reconheça que é cada vez maior no país o uso da moeda. 

Melhores salários

Eles concordam ao afirmar que o governo Maduro é o responsável pela crise por sua indisciplina fiscal e monetária, que se expressa na emissão de dinheiro sem respaldo na produção de bens e serviços. Além do mais, lembram que "nem todos os venezuelanos têm dólares" e os salários em bolívares dificilmente podem ser trocados por um punhado deles, quando produtos como um pneu podem custar entre US$ 40 e US$ 200.

A crise venezuelana tem levado funcionários públicos a reivindicar melhores salários há meses nas ruas, ainda que suas demandas não contemplem pagamentos na moeda americana. O governo de Maduro primeiro negligenciou as manifestações e depois respondeu com um pacote de medidas criticadas por especialistas e opositores. 

O próprio Maduro já anunciou que fará novas "correções" à economia, enquanto os economistas preveem um novo aumento do salário mínio, que atualmente não dá para comprar sequer um "pão de maduro", uma preparação tradicional venezuelana das festas de Natal. / AP e EFE

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