EFE
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Maduro em seu labirinto

CENÁRIO: THE NEW YORK TIMES

O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2015 | 02h02

Retratos do líder venezuelano Hugo Chávez foram exibidas nas várias etapas da recente viagem de Nicolás Maduro ao exterior, como o presidente do país com as maiores reservas de petróleo do mundo em busca de ajuda financeira. Em um discurso para os parlamentares na semana passada, Maduro - cujo índice de popularidade caiu para 22%, com a economia venezuelana à beira do colapso - novamente evocou seu mentor ao prever uma vitória esmagadora nas próximas eleições parlamentares. "Não tenho dúvida de que a nação produzirá uma grande vitória em memória de Hugo Chávez nas eleições que serão realizadas este ano", afirmou.

Desde que foi eleito em abril de 2013 por uma minúscula margem de votos, Maduro se apoiou vigorosamente no legado do seu predecessor, um populista que governou pessimamente o país, mas possuía um carisma magnético e um instinto político arguto. Sem tais talentos, Maduro se tornou cada vez mais um político errático e despótico em busca da sobrevivência política que parece mais desalentadora a cada dia que passa. As sólidas receitas obtidas com a exportação de petróleo permitiram a Chávez construir uma rede robusta de apoio e criar programas sociais generosos durante seus 14 anos no poder. Mas eles estão se tornando cada vez mais insignificantes com Maduro.

A forte queda dos preços do petróleo, que representa 96% das receitas de exportação do país, praticamente destruiu uma economia que vem sendo administrada pessimamente. A inflação subiu para 64% no ano passado. Na quarta-feira o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que a economia venezuelana sofrerá uma contração de 7% este ano, o que poderá obrigar o governo de Maduro a dar um calote dos seus empréstimos ou reduzir de modo significativo o petróleo subsidiado que o país fornece para aliados do Caribe, incluindo Cuba.

Maduro tem sigo vago sobre o tipo de medidas econômicas dolorosas que seu governo pretende adotar, mas prometeu incompreensivelmente expandir os programas sociais e elevar os salários. Longe de admitir responsabilidade pela crise, ele e seus seguidores culpam os opositores políticos pela escassez de receita e os acusam de envolvimento numa conspiração internacional.

Em fevereiro, prenderam uma das mais importantes figuras da oposição, Leopoldo López, acusando-o de fomentar os violentos protestos do ano passado. Durante o julgamento kafkiano de López, cujo processo ainda não terminou, os promotores o acusaram de instigar o banho de sangue por meio de mensagens subliminares. No mês passado as autoridades venezuelanas acusaram outra líder da oposição, María Corina Machado, de complô para assassinar Maduro.

As medidas repressivas contra a oposição, realizadas livremente diante de uma imprensa fraca e comprometida, parece ser um esforço para desviar a atenção da qualidade de vida que vem se deteriorando.

Numa tarde, uma senhora que esperava na fila do supermercado há quatro horas, mostrou a uma jornalista da TV Al-Jazira seu antebraço onde alguém havia escrito o número 413, que era o seu lugar na fila. "Somos como gado. Isso precisa acabar", disse ela. Horas depois, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, disse que a jornalista, Mónica Villamizar, era uma espiã americana. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Editorial publicado segunda-feira

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