'Maduro enganou Brasil, Colômbia e Equador'

Um dos mentores do 'A Saída', prefeito visto como próximo alvo do chavismo quer reforma da oposição ao governo venezuelano

Entrevista com

Antonio Ledezma, prefeito de Grande Caracas

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h01

Um dos idealizadores do movimento "A Saída", que levou milhares de venezuelanos às ruas para pedir o fim do governo do presidente Nicolás Maduro, o prefeito da Grande Caracas, Antonio Ledezma, defende uma recomposição da oposição venezuelana para fazer frente ao enfraquecimento dos protestos contra o governo e o impasse na negociação para o fim da crise política com o chavismo.

Ao contrário de María Corina Machado, que perdeu o mandato de deputada, e de Leopoldo López, que foi preso, Ledezma ainda não sofreu sanções da Justiça venezuelana. Ele forma, com o governador de Miranda, Henrique Capriles, e do de Lara, Henri Falcón, o núcleo dos principais líderes com cargo eletivo na Mesa de Unidade Democrática (MUD). Na avaliação de Ledezma, a repressão que deixou 43 mortos no país contribuiu para o enfraquecimento das manifestações. A seguir, trechos da entrevista:

Temos visto ações na Justiça venezuelana contra figuras importantes da oposição, principalmente as que criaram o movimento "A Saída", como María Corina Machado e Leopoldo López. O senhor teme ser o próximo?

Isso não é novo. Desde 2009, perseguem-me. Tiraram o orçamento e as competências da prefeitura. Esse é um governo que quer sobreviver com repressão. Por isso, apela a esse expediente de ameaçar e intimidar. Aqui não temos apenas dois prefeitos presos (como é o caso dos prefeitos de San Diego e San Cristóbal). Todos os prefeitos da oposição sofrem alguma ameaça.

Ainda não há ações judiciais?

Todos os dias gente do governo diz que somos magnicidas e desestabilizadores. Inventam qualquer coisa.

E a MUD ainda está aberta ao diálogo com o governo?

Nunca nos negamos a dialogar. Ocorre que o governo não faz isso com franqueza. O governo tem desprestigiado o diálogo, fazendo pouco dos venezuelanos que acreditam ser esse o caminho para solucionar os protestos.

Há consenso dentro da MUD?

Sempre acreditamos na via constitucional. E o diálogo é um caminho que não podemos desprezar. Mas diante das características desse governo, necessita-se de um diálogo com agenda prévia, com condições claras, elementares e lógicas.

Que condições são essas?

Queremos garantias para o fim da repressão e o fim da perseguição a líderes da oposição e estudantes. Queremos uma lei para responsabilizar quem violou direitos humanos. Queremos saber o que aconteceu com os milhões de dólares que desapareceram dos organismos públicos.

Como fica a mediação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e do Vaticano?

Foram mediações de boa-fé, mas o governo pecou ao caçoar das boas intenções.

E o Brasil?

O Brasil faz parte da Unasul e o governo usou essa mediação para dar respaldo aos objetivos próprios. Brasil, Colômbia e Equador foram enganados por Maduro.

E depois das negociações as mobilizações de rua perderam um pouco da força, não?

Há uma imensa maioria que protesta de diversas maneiras contra os desacertos do governo. Quem faz fila para comprar comida, protesta. As pessoas que esperam em longas filas por remédios em hospitais também protestam. Os motoristas que não conseguem peças para seus carros protestam. É o mesmo caso dos estudantes que sofrem com a falta de insumos para laboratórios de suas escolas, ou das vítimas da violência.

Mas as passeatas de rua não estão menos frequentes?

Claro, porque o governo usa a repressão para silenciar o povo que denuncia seus erros.

A próxima eleição presidencial será em 2019 e mesmo um referendo revogatório só pode ser convocado depois da primeira metade do mandato. Qual a estratégia para curto e médio prazo?

O que estou propondo é uma recomposição da MUD. Precisamos de uma unidade eficiente e para isso precisamos definir um grupo de líderes para não dispersar nossa força.

Com Leopoldo López preso e María Corina Machado cassada, como fazer isso?

Por isso é importante nos aglutinarmos. Temos ainda importantes líderes e precisamos seguir numa só direção.

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