Marcelo García/Efe
Marcelo García/Efe

Maduro, o herdeiro leal e pragmático

Civil em meio a movimento controlado por militares, vice-presidente cresceu no chavismo demonstrando lealdade ao líder bolivariano

Oscar Medina*, especial para O Estado de S. Paulo,

05 de março de 2013 | 20h25

O Nicolás Maduro que o mundo conheceu foi aquele grandalhão sentado à esquerda de Hugo Chávez, com a cabeça quase côncava, as mãos ocultas embaixo da mesa, os olhos mortiços e inchados como os de alguém que tivesse passado uma longa noite aos prantos, as bochechas pendendo e com um traço de tristeza nos lábios.

Esse Nicolás Maduro de ombros caídos, como se o peso da nova responsabilidade que lhe cabia assumir o estivesse afundando no assento, não é a imagem mais representativa de quem atuou durante seis anos como chanceler da República Bolivariana da Venezuela, nos quais fez um trabalho discreto, mas celebrado nos círculos da diplomacia. Essa imagem, porém, foi a sua nesses últimos dias.

Nos incontáveis textos publicados na imprensa que trataram de sua biografia nas últimas semanas, muitos destacaram com surpresa - e em certas ocasiões, até com um viés brincalhão - seu passado de motorista no sistema de ônibus que complementa o serviço do metrô caraquenho. Mas elas deixam de fora um elemento-chave para uma nação como a Venezuela atual: Nicolás Maduro é um civil. O civil que alcançou - empurrado pelo destino - a mais alta posição dentro de um projeto de poder subscrito pela presença militar.

O singular escalão do governo de Hugo Chávez não tem como base apenas a distribuição de cargos públicos. Aqui conta muito - e mais - a posição que o funcionário ocupa no afeto deste a quem chamavam "comandante presidente" e para quem se exigia uma veneração quase religiosa. E Maduro conquistou espaços em ambos os planos. Em outubro, foi nomeado vice-presidente, cargo que chegou a ocupar simultaneamente com o de ministro das Relações Exteriores e no momento final que atravessou Hugo Chávez, foi ungido como herdeiro político do líder bolivariano.

Em 8 de dezembro, numa rede de rádio e televisão, o presidente apelou para toda sua capacidade emotiva para informar o país que, em razão do ressurgimento de células cancerosas em seu corpo, ele deveria voltar de imediato para uma sala de cirurgia cubana.

Ali mesmo, diante das câmeras, Chávez deu uma instrução surpreendente: "Se ocorrer algo, repito, que me incapacite de alguma maneira, Nicolás Maduro não só nesta situação deve concluir, como manda a Constituição, o mandato, mas minha opinião firme, plena como uma lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que - nesse cenário que obrigaria a convocar, como manda a Constituição, novas eleições presidenciais - vocês elejam a Nicolás Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela".

E acrescentou: "Eu lhes peço de coração. Ele é um dos líderes novos de maior capacidade para continuar, se eu não puder, Deus sabe o que faz. Se eu não puder continuar com sua mão firme, com seu discernimento, com seu coração de homem do povo, com seu dom de gente, com sua inteligência, com o reconhecimento internacional que ele ganhou, com sua liderança, à frente da presidência da república, dirigindo, juntamente com o povo sempre e subordinado aos interesses do povo, os destinos dessa pátria".

Nessa noite, sentado à direita de seu comandante, estava o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, um oficial que participou com Chávez da tentativa de golpe de Estado de 4 de fevereiro de 1992 e o acompanhou todos esses anos em diversos postos, tanto no partido oficialista - primeiro Movimento Quinta República e agora Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) - como em cargos governamentais de alto escalão. Cabello é considerado um dos homens fortes da revolução bolivariana por sua liderança dentro do PSUV e - mais ainda - por seus laços estreitos com o meio militar. Por isso, no imaginário especulativo do venezuelano, o camarada Diosdado Cabello se enquadrava melhor como possível sucessor. Mas a vontade do líder foi outra.

O que Chávez fez naquela noite de sábado foi revelar algo de que se esquivou durante muito tempo, fiel a seu estilo personalista, que o colocou sempre como centro e motor de seu afã de construir o "Socialismo do Século 21". Porque, além da norma que estabelece que será o vice-presidente que suprirá a "ausência temporária" (até 90 dias, com prorrogação de outros 90 dias) do presidente ou sua ausência "absoluta" durante os dois últimos anos de seu mandato, Chávez nomeou Maduro o beneficiário de seu capital político, o responsável por continuar sua obra.

Músico e esquerdista. Nicolás Maduro nasceu em Caracas em 23 de novembro de 1962. Foi criado em Coche, uma zona popular do vale caraquenho. Em seu tempo de estudante, desde cedo mostrou simpatia pelas organizações de esquerda. De fato, ele foi membro da Liga Socialista, um partido fundado em 1977, que se definia como marxista, leninista e maoista, e teve certo grau de ascendência entre estudantes secundaristas e universitários.

O jovem Nicolás Maduro, de bigode e cabeleira, além de propagar a palavra de Marx e fazer o suficiente para que em seu currículo se anote o título de "dirigente estudantil", permitiu-se momentos de lazer musical tocando baixo - e dizem que, às vezes, guitarra - numa banda chamada Enigma.

Passada a adolescência, em princípios da década de 90, Maduro obteve trabalho como motorista de ônibus no sistema Metro, onde logo se tornou sindicalista. Como muitos outros, em fevereiro de 1992 ele viu um líder potencial naquele tenente-coronel que arremeteu contra o sistema político venezuelano. Também como muitos, Maduro se aproximou dos oficiais golpistas durante o tempo em que passaram atrás das grades.

Nesse marco de conspiradores encarcerados, ele conheceu a advogada Cilia Flores, defensora de alguns militares e sua companheira até hoje, com quem compartilhou uma ascensão vertiginosa ao poder: sua mulher foi deputada, presidente da Assembleia Nacional, vice-presidente do PSUV e é a atual procuradora-geral da república.

Durante a campanha para a presidência de 1998, Maduro foi um dos assistentes pessoais do candidato Hugo Chávez e era, evidentemente, militante de seu partido de então, o Movimento Bolivariano Revolucionário 200. No ano seguinte, com Chávez estreando na presidência, ele fez parte da Assembleia Nacional Constituinte que preparou uma nova Constituição para o país. Em 2000, foi eleito deputado.

Seis anos mais tarde, seus camaradas o puseram na frente do Parlamento e, alguns meses depois, o presidente o encarregou do Ministério das Relações Exteriores, apesar de ele não ter a menor experiência no âmbito diplomático.

Maduro demonstrou durante todo esse tempo, porém, que é capaz de aprender rápido e com as coisas andando. E o fez bem. Ao menos do ponto de vista do chavismo.

Pragmatismo. Em seu desempenho como chanceler, destacou-se, para efeito do público, sua atitude "anti-imperialista" e sua posição crítica ante o governo dos Estados Unidos, para o qual não poupou adjetivos contundentes. Para os entendidos no tema, seus anos no Ministério das Relações Exteriores preteriram o profissionalismo e os diplomatas de carreira do país. Mas apesar de tudo isso, alguns delegados estrangeiros reconhecem privadamente em Maduro um interlocutor afável, que sabe escutar e pode criar pontes dentro de uma concepção política que só entende de aliados e inimigos. Além disso, Maduro foi o principal operador das alianças com China, Irã e Rússia, fundamentais na estratégia geopolítica da revolução bolivariana.

De seus tempos na Assembleia, os correspondentes lembram a atitude afável e bem disposta, algo que não se viveu no dia a dia durante a gestão de Cilia Flores e ainda menos agora na de Diosdado Cabello. "Ele é o mais decente dos chavistas", diz uma jornalista. "É hermético, claro, mas não é um grosseirão, sempre foi um cavalheiro. Ele pôs ordem no funcionamento da Assembleia", comenta outra.

Sua carreira, no entanto, não é impoluta. Em 2002, parlamentares de oposição o acusaram de enriquecimento ilícito. A denúncia foi praticamente engavetada e cinco anos depois o processo foi encerrado.

Ele também teve seus tropeços. Em abril, durante um ato diante da Embaixada de Cuba em Caracas, no qual ele se recordava do ataque contra essa sede diplomática que ocorrera durante os dias do golpe contra Chávez, em abril de 2002.: "Assim será a índole desses ricaços folgados, maricas, fascistas, que pretendem dar lições ao povo da Venezuela". Dias depois, ele pediu desculpas pelo uso da expressão "maricas".

Dentro do chavismo - ainda que nos bastidores - ele é considerado um "excelente político", um homem que sabe se mover em águas turbulentas. Também lhe dão pontos a favor por sua habilidade de se colocar sob a asa de Hugo Chávez sem ter criado uma "tribo" própria, com posições extremadas, nem desmedido afã por ocupar parcelas de poder. De todo o modo, Maduro é um homem de Chávez: fiel e leal a seu mentor e esteve sempre ao seu lado desde o início da enfermidade. E isso talvez tenha sido determinante para ele chegar ao ponto onde está.

Consenso. Algumas análises apressadas feitas pela oposição preveem uma briga de faca entre Maduro e Cabello pela conquista da presidência diante da ausência de seu comandante. Mas isso, que talvez ocorra no longo prazo, hoje não se coloca dentro do chavismo. Chávez pôs ordem dentro de seu círculo mais próximo assegurando a promessa de unidade necessária para manter vivo o projeto. O equilíbrio desse jogo repousa em três pilares: Diosdado Cabello estaria encarregado de controlar o establishment militar; o ex-vice-presidente Elías Jaua, embora derrotado em sua aspiração pessoal, apoiou a ofensiva para a conquista do maior número possível de governos nas eleições de 16 de dezembro; e Maduro segue à frente das relações internacionais e é a aposta de todos para evitar a fragmentação diante da determinação constitucional para a realização de novas eleições presidenciais.

"É preciso entender uma coisa importante", explica Rocío San Miguel, coordenadora da ONG Controle Cidadão: "O alto comando militar não faz objeção, nem fará, a nenhuma decisão de Chávez, embora seja clara a distância de Nicolás Maduro do meio militar. Mas Maduro demonstrou grande capacidade de adaptação." Para ter uma melhor perspectiva do que representam os fardados na Venezuela, basta um cálculo feito por San Miguel: "Estimamos que há mais de 2 mil militares desempenhando funções importantes dentro da administração pública, de prefeituras a governos estaduais, e até escritórios de orçamento de instituições do Estado". E outro dado: dos 23 aspirantes do chavismo nas eleições regionais de 16 de dezembro, 12 fizeram carreira dentro das Forças Armadas e 11 foram eleitos. "Neste momento, não há ameaças militares de nenhum tipo", assegura a especialista. "Vem aí uma era Maduro na Venezuela, uma era de algo que não conhecemos."

Luis Vicente León, diretor da empresa de pesquisas Datanálisis, tem avaliação similar sobre o herdeiro chavista: "A última coisa que os militares desejariam é dar um golpe de Estado. Esta só seria uma medida inevitável diante da perda de seus privilégios. De resto, eles sempre poderão negociar - e Maduro é esse negociador necessário". Ele também vê nessa capacidade o potencial de apagar incêndios: por não estar instalado em grupos de conflito, Maduro é o homem amálgama, o chamado a conciliar e acalmar ambições quando o comandante não estiver: "Seu discurso às vezes é um tanto primitivo no uso de terminologias e adjetivos de ataque aos rivais, mas a verdade é que ele é mais negociador e mais aberto que as outras opções que Chávez tinha sobre a mesa". Assumindo que Cabello é tido como militar intransigente e Elías Jaua é considerado um radical de esquerda com pouco carisma, a conclusão é óbvia: "Maduro era o melhor que Chávez tinha à mão".

Muitos na Venezuela - embora com Chávez toda surpresa é possível - dão como certo o advento desta "era Maduro". O herdeiro foi encarregado de informar que o processo pós-operatório de Chávez seria longo e os venezuelanos deveriam estar preparados para dias difíceis. O governo organizou missas e correntes de oração em praças públicas para rogar ao céu pela saúde do comandante e não teve dúvida de aproveitar a situação para apoiar a campanha dos candidatos a governador pedindo votos "por amor a Chávez". Funcionou.

Em seus discursos, Maduro - seguidor do guru indiano Sai Baba - jurou lealdade mesmo se houver vida após a vida.

Com o líder bolivariano sem assumir a presidência, a Constituição venezuelana manda que novas eleições sejam convocadas. E o chavismo sem Chávez já tem candidato. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É JORNALISTA VENEZUELANO

 

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