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Maduro pede ‘medidas especiais’ contra mídia e oposição da Venezuela

Presidente venezuelano quer ações drásticas da procuradoria para evitar notícias sobre o desabastecimento

O Estado de S. Paulo,

01 de outubro de 2013 | 23h00

CARACAS - O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ampliou nesta terça-feira, 1, uma ofensiva contra a oposição e a imprensa privada venezuelana. Ele também acusou o governo dos EUA de ingerência em assuntos internos do país, após a expulsão de três funcionários da Embaixada americana. Para analistas, Maduro radicaliza seu discurso de olho nas eleições municipais de dezembro, tidas como um referendo dos primeiros meses de governo.

Depois de o líder chavista ter pedido no fim de semana à Procuradoria-Geral da Venezuela a adoção de "medidas especiais" contra meios de comunicação que, na sua visão, estimulam uma corrida desenfreada às compras ao noticiar a crise de desabastecimento no país, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) criticou o que chamou de "padrão duplo" do governo venezuelano contra a mídia.

Segundo a entidade que representa os jornais do continente, Maduro ataca a cobertura da imprensa sobre o desabastecimento no país enquanto impede o acesso dos diários venezuelanos a tinta e papel-jornal, insumos básicos para a produção dos periódicos. Ainda de acordo com a SIP, as medidas atingem majoritariamente publicações regionais, como os jornais El Sol de Maturí, Antorcha, El Caribazo e El Caribe. No fim de semana, o jornal Impulso denunciou em editorial a prática.

"Vários periódicos do país deixaram de ser publicados por falta de matéria-prima", afirmou por meio de nota o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP, o uruguaio Claudio Paolillo. "Por um lado o governo acusa os empresários privados de especular e causar a escassez de produtos de primeira necessidade, mas omite a falta de insumos para a publicação de jornais, sendo que é o único responsável por permitir sua importação."

A nova ofensiva chavista contra a imprensa, começou no sábado, com o pedido para a procuradoria tomar medidas contra uma suposta guerra psicológica e midiática. "Isso é propaganda de guerra. A mídia escrita, televisiva e de rádio está promovendo uma guerra psicológica contra a segurança alimentar do povo", disse Maduro, sobre as reportagens sobre o desabastecimento. "Isso não pode ficar impune". Segundo o Banco Central da Venezuela, o índice de desabastecimento do país é de 20%.

Retórica. Maduro voltou suas críticas para os Estados Unidos e setores do empresariado venezuelano. Segundo o sucessor de Hugo Chávez, a diplomacia americana estaria conspirando com a oposição contra o governo. "Querem transformar o Estado de Bolívar na nossa Benghazi", disse Maduro, em alusão à província líbia na qual a oposição que derrubou o ditador Muamar Kadafi se organizou, com ajuda ocidental. "Não posso permitir que nenhum governo se intrometa em nossos assuntos internos."

O chavista acusou líderes empresariais venezuelanos de entidades patronais como a Fedecámaras e Consecomercio de atuar "no limite da legalidade" no fornecimento de alimentos.

Para o sociólogo Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis, o chavismo trabalha com uma estratégia de radicalização do discurso com base nas eleições de 7 de dezembro. "Maduro quer impedir a todo custo que o desabastecimento se torne um tema de campanha. Por isso, ameaça a imprensa com a censura, ou com a autocensura", avaliou León ao Estado.

"Isso se insere numa lógica de seu mandato na qual a política é radicalizada, para impedir a oposição de se comunicar com o eleitorado. A eleição está sendo vista como um referendo sobre o governo de Maduro." / EFE, COM LUIZ RAATZ

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