REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Maduro pede uma 'agenda de respeito' aos EUA

Em encontro com o subsecretário Thomas Shannon, o líder venezuelano manifestou interesse em reatar relações bilaterais

O Estado de S. Paulo

22 Junho 2016 | 17h56

CARACAS - O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, recebeu nesta quarta-feira (22) no começo da tarde no Palácio de Miraflores o subsecretário de Estado americano, Thomas Shannon, que chegou na terça-feira à Venezuela em meio às expectativas favoráveis sobre uma possível aproximação entre os governos de Caracas e de Washington. 

“Reiterei em uma longa conversação nosso interesse de que mais cedo possível possamos construir uma agenda de respeito, uma agenda positiva entre o governo dos EUA e o governo revolucionário e bolivariano que eu presido”, disse Maduro sobre o encontro, do qual também participou a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez.

As declarações de Maduro representam uma grande mudança de posição, já que o líder bolivariano constantemente acusou os EUA de tentarem derrubar seu governo e de serem responsáveis pelos problemas no país.

"Não é fácil em razão das diferenças que sempre existiram e ainda existem. Não é fácil pelas tentativas de encurralar nosso país, de intrometer-se em nossos assuntos internos", disse Maduro durante encontro com seguidores, ao reconhecer que as tensões dominaram as relações entre Caracas e Washington nos últimos anos. 

Sem dar mais detalhes sobre a reunião com Shannon, Maduro disse que aproveitou para enviar ao presidente Barack Obama a mensagem de que ele precisa retificar a posição que manteve em seus quase oito anos de mandato "contra a revolução bolivariana". 

Pela manhã, o diplomata americano se reuniu com o deputado opositor Enrique Márquez, primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional. O político mostrou-se otimista com a visita do subsecretário de Estado e disse que ela representa uma importante oportunidade para que a Venezuela e os EUA regularizem suas relações e nomeiem seus embaixadores.

Márquez, que também é líder do partido Un Nuevo Tiempo, disse à agência Associated Press que no encontro com Maduro, Shannon insistiria na “necessidade de uma mudança política, na reforma da economia e na necessidade urgente de que se reconheça a crise humana no país e possa ser construído um canal humanitário” diante da complexa crise que a Venezuela enfrenta. 

A conflituosa relação entre os dois países – sem embaixadores em suas respectivas capitais desde 2010 – ficou ainda mais tensa em março de 2015, quando o presidente americano, Barack Obama, assinou um decreto considerando a Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária” para a segurança dos Estados Unidos. A medida, que inclui sanções a sete funcionários do governo venezuelano, foi renovada em março, apesar de a Venezuela ser o 3º maior fornecedor de petróleo para os EUA.

Shannon encontrou-se na terça-feira com o líder opositor Henrique Capriles, na sede do partido Primero Justicia, e dirigentes dos partidos Acción Democrática e Voluntad Popular.

O presidente da Comissão de Política Externa do Congresso e líder do Voluntad Popular, Luis Florido, disse à AP que no encontro foi analisada a situação da Venezuela, mas não deu mais detalhes, argumentando que a reunião teve caráter privado.

Shannon chegou à Venezuela na terça-feira para dar sequência ao encontro que o secretário americano de Estado, John Kerry, teve no dia 14 com a chanceler venezuelana, paralelamente à Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em Santo Domingo.

Segundo o Departamento de Estado, a visita de Shannon tem como objetivo desenvolver uma série de debates sobre os aspectos sociais, econômicos e desafios políticos na Venezuela, para tentar ajudar a promover um “diálogo construtivo” e obter soluções com a participação de todas as partes interessadas. 

Diálogo. Na terça-feira, Maduro mudou seu discurso com relação à oposição, que tenta realizar um referendo revogatório contra seu mandato, e afirmou que estava disposto a “ver até o diabo”, para iniciar um diálogo com seus adversários políticos.

Maduro fez o convite a seus opositores num momento em que a OEA debate em Washington a crise política no país produtor de petróleo e a proposta do presidente da organização, Luis Almagro, de adotar a Carta Democrática regional, que levaria à suspensão da Venezuela. 

O presidente venezuelano solicitou à coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) e em particular a Henry Ramos Allup, presidente do Parlamento, que responda positivamente a seu chamado.

O mandatário pediu apoio para “ levar a MUD e Ramos Allup a se sentarem o mais cedo possível” para conversar, após quase seis meses de uma luta de poderes entre o Executivo e o poder legislativo que marca uma severa crise econômica.

Referendo. Pelo terceiro dia consecutivo, milhares de venezuelanos se concentraramnesta quarta-feira  nos centros habilitados em todo o país para recolher suas impressões digitais e validar as assinaturas pedindo o revogatório contra Maduro.

O secretário executivo da coalizão opositora, Jesús “Chúo” Torrealba, disse acreditar que serão superadas as 196 mil assinaturas exigidas pelas autoridades eleitorais – que representam 1% dos eleitores do país – para completar a segunda fase do processo. A oposição assegura que entre segunda e terça-feira conseguiu validar 154 mil assinaturas, das 1,3 milhão que foram aceitas pelo Tribunal Supremo da Venezuela (TSJ). / AP e AFP

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