O destino da deputada María Corina Machado poderia ser a prisão. O governo de Nicolás Maduro exigiu e, na Assembleia Nacional, os deputados chavistas propuseram retirar sua imunidade parlamentar. Ela foi uma das vozes da oposição que convocou os protestos recentes na Venezuela. Leopoldo López, do partido Vontade Popular, preso em fevereiro, era seu companheiro nesse movimento chamado de "A Saída". A seguir, os principais trechos da entrevista que María Corina concedeu ao Estado.

Entrevista com

09 de março de 2014 | 02h06

O que pretende o movimento

"A Saída"?

Queremos conquistar democracia e liberdade. Partimos do princípio de que um regime que persegue, reprime, tortura, assassina e censura é uma ditadura. Na Venezuela, há uma ditadura que até algumas semanas conseguia silenciar angústias, frustrações e sonhos do povo. O movimento estudantil tirou essa máscara. Propomos uma transição para a democracia que se realize com um movimento cívico no âmbito da nossa Constituição.

Mas Maduro foi eleito. Por que seu governo seria uma ditadura?

(Vladimir) Putin também chegou ao poder pelo voto e alguns ditadores demonstraram que é possível chegar ao poder pela via democrática e depois transformar seu governo num regime totalitário. Uma democracia não é definida por sua origem, mas pela maneira como o poder é exercido. Maduro optou por um governo repressivo. Hoje, ninguém duvida da natureza do regime. Vimos como são usados grupos paramilitares armados e forças de segurança do Estado, civis e militares, para atacar, torturar e assassinar estudantes que protestavam pacificamente. Não resta a menor dúvida de que Maduro perdeu a legitimidade.

Então, "A Saída" pretende

acabar com a ditadura?

Quando vivemos num sistema democrático, todo cidadão tem o direito de exigir a mudanças do regime a qualquer momento e as Constituições têm mecanismos para isso. Quando não há democracia, esse direito se torna um dever.

Mas a outra parte do país

parece satisfeita com o governo. O que há com essas pessoas?

Você acha que as mães que fazem fila nas funerárias porque mataram um filho estão satisfeitas? Essas mulheres não têm a mínima esperança de justiça. Você acha que os trabalhadores que recebem um salário de fome podem estar felizes? Que as donas de casa que passam a metade do dia procurando produtos básicos estão satisfeitas? Diante do despertar dos estudantes, há também uma reação das camadas populares. Nós, venezuelanos, temos feito uma conexão direta entre o drama econômico e a solução, que é de ordem política.

Vocês propõem a saída do

presidente?

Sim, a mudança de regime. Porque sabemos que esse regime não mudará suas políticas. O que será preciso ocorrer ainda na Venezuela para que reformas sejam adotadas? Esse é um regime disposto a tudo para se manter no poder e é nosso direito e obrigação enfrentar esse modelo. Nossa Constituição estabeleceu mecanismos pelos quais os cidadãos podem ativar uma mudança de regime: uma emenda constitucional, um referendo revogatório, uma Assembleia Constituinte ou um pedido de renúncia. Todos são meios democráticos e partem de iniciativas cidadãs. O que estamos propondo? Realizar um debate com a sociedade. A proposta de realizarmos assembleias populares foi acolhida pela população.

O movimento "A Saída" coincidiu com as manifestações estudantis. Quem sobrepujou quem? Impossível dizer. Este é um enorme movimento social em que confluíram aspirações e frustrações de muitos setores.

O que foi conseguido?

Primeiro, os estudantes conseguiram tirar a máscara do comportamento pseudodemocrático do regime. As imagens de jovens feridos, assassinados em manifestações cívicas por membros da Guarda Nacional e outros grupos armados são a prova do nível de crueldade das ações do Estado. As denúncias de tortura comoveram o país. As imagens de uma Venezuela oprimida, a censura imposta aos meios de comunicação, fizeram com que um setor da opinião pública, que não sabia do drama da Venezuela, agora o conheça. Isso causou uma pressão sobre alguns governos que se dizem democráticos, mas têm agido com cumplicidade em todos esses anos. Em segundo lugar, ficou provado que Maduro perdeu a rua. O regime mobilizava grandes multidões com dinheiro, ônibus, pressão sobre os funcionários públicos. Isso intimidava e era uma demonstração de força. Em terceiro lugar, os protestos demonstraram que não somos uma sociedade adormecida, assustada nem resignada. Aqui, há uma enorme coragem cívica, consciente do sacrifício e dos riscos.

A sra. acha que o movimento está apenas começando?

Não, estamos resistindo há 15 anos.

O que se pode esperar das

instâncias internacionais?

O que podemos esperar da Unasul, que se reuniu porque Evo Morales ficou preso algumas horas aguardando seu voo, mas não articula uma palavra enquanto assassinam e torturam estudantes na Venezuela? E da Celac? Ou do Mercosul, cujo estatuto contém cláusulas democráticas? Por outro lado, tem havido pronunciamentos com uma contundência jamais vista antes, como os do Parlamento Europeu e do ex-presidente da Costa Rica Oscar Arias.

Como seria na prática a saída de Maduro?

Estamos falando de um ditador. Ele não dirá: "Eu saio porque vocês não me querem". A esse tipo de regime, prefiro chamar de "neoditadura", porque é tão brutal quanto as ditaduras tradicionais, mas tenta criar uma fachada democrática via eleições e cumplicidade internacional. Mas somos nós que temos de conquistar democracia e liberdade. Quando se nega a um povo todas as vias institucionais, o que lhe resta? O protesto, a rua, a organização cívica.

A violência?

A violência é a estratégia do regime. Ela tem sido um instrumento para exercer um controle social. O que resta? O poder do povo organizado nas ruas de maneira cada vez mais ampla, maciça e firme. Assim, conseguiremos que eles recuem.

Vocês querem uma rebelião?

Não. Lutamos pela organização e pela mobilização do cidadão até que nos escutem. O regime terá de escutar a maioria que protesta pacificamente. É preciso entender que aqui existe uma sociedade cujas angústias foram reprimidas. Ficou provado que somos uma maioria que entende que essa é uma questão de valores, que se trata de defender a família. Nossa causa é a Venezuela. Consequentemente, isso significa riscos e sacrifícios. Nossa geração está disposta a assumi-los.

Há divisões na oposição?

Há diferenças de critérios, mas o que nos une é uma visão de país e a disposição para lutar, arriscar e fazer o que for preciso para salvar a Venezuela.

A sra. se considera radical?

Se radical significa defender nossos valores e nossos princípios sem concessões, então, pode me chamar de radical. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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