REUTERS/Ueslei Marcelino
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Maduro promete ‘cúpula mundial’ para salvar o país

Presidente tenta romper isolamento diplomático e acusa Luisa Ortega, ex-procuradora-geral, de cumplicidade em escândalos de corrupção

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 20h25

CARACAS - O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, afirmou neste domingo, 20, que convocará “uma grande cúpula mundial de solidariedade com o povo da Venezuela”, evento sobre o qual ainda não divulgou detalhes. O anúncio ocorre no momento em que o governo chavista tenta superar o isolamento diplomático internacional.

“São alternativas que vão nos permitir atenuar uma campanha criminosa, brutal, gigantesca, que há contra a Venezuela no mundo”, disse o líder chavista, em entrevista ao canal Televen, após atacar os governos “de direita” da região pelas duras críticas ao rumo tomado pelo governo venezuelano.

Maduro divulgou a ideia da cúpula após a Assembleia Constituinte ter sido alvo de inúmeras críticas internacionais por se apropriar, na sexta-feira, das funções do Parlamento. “Desejo que a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) dê um passo adiante e convoque uma cúpula pelo diálogo, pela paz e em apoio à soberania da Venezuela”, declarou o presidente.

Maduro disse que pretende buscar “apoio internacional contra a ameaça” do presidente dos EUA, Donald Trump, que não descartou uma intervenção militar para resolver a crise venezuelana. A ideia de Trump, no entanto, já foi amplamente rejeitada por governos latino-americanos, incluindo muitos que são críticos a Maduro.

Para romper o isolamento, nas últimas semanas, o chavismo tem buscado mobilizar países próximos como Cuba, Bolívia, Rússia e China, além de outros atores internacionais que não são abertamente hostis, para fazer frente às condenações na Europa e nas Américas à Assembleia Constituinte que, segundo os críticos, levaram o país a uma ditadura.

O ministro de Relações Exteriores venezuelano, Jorge Arreaza, o de Informação, Ernesto Villegas, o irmão do ex-presidente Hugo Chávez, Adán Chávez, e a presidente da Constituinte, Delcy Rodríguez, estão trabalhando nos preparativos da cúpula, que segundo Maduro pode ser realizada em El Salvador. De acordo com o presidente venezuelano, os “eventos preparativos” para a reunião começarão a ser realizados a partir de hoje “em vários países do mundo”.

Dissidente

Maduro também afirmou que, enquanto a ex-procuradora-geral do país Luisa Ortega Díaz esteve à frente do Ministério Público (MP), investigações de supostos casos de corrupção que ele ordenou foram engavetadas. O presidente garantiu que entregou a Ortega provas sobre escândalos envolvendo algumas empresas que exploram petróleo na Bacia do Orinoco - rica reserva de 55 mil quilômetros quadrados -, “mas o MP alertou os culpados”.

“Quando informamos ao Ministério Público, o que (a ex-procuradora) fez? Agora, já sabemos. Ela avisou aos corruptos, saíram do país, lhes cobrou milhões de dólares com os quais abriu contas no exterior, em paraísos fiscais do Caribe”, denunciou Maduro na mesma entrevista à emissora Televén.

“Depois, descobrimos o motivo pelo qual eles saíram do país. O MP era quem os extorquia e protegia esses setores”, afirmou.

O presidente assegurou - como já havia denunciado anteriormente o dirigente chavista Diosdado Cabello - que o marido da ex-procuradora, o deputado Germán Ferrer, “era o encarregado de uma rede de extorsão que funcionava no MP”. “Agora é que descubro em toda a sua magnitude o que é uma rede que protegia a corrupção, uma rede de extorsão.”

Ortega rompeu com o chavismo após tentativa fracassada do Tribunal Superior de Justiça de usurpar os poderes da Assembleia Nacional, em março - ação que desencadeou a onda de violência que deixou mais de 120 mortos. Desde então, o MP começou a investigar casos de corrupção de altos funcionários do governo, inclusive do próprio Maduro, que teria recebido propina da Odebrecht. Perseguida, ela fugiu para a Colômbia, no sábado, ao lado do marido.

Cadeia. Em uma nova tentativa de imputar acusações contra manifestantes antichavistas, o novo procurador-geral, Tarek William Saab, anunciou no domingo que iniciou quase 60 investigações por “cortes de árvores” feitos por “manifestantes violentos”. Saab disse que mais de 3 mil árvores foram danificadas para serem usadas como barricadas nos protestos da oposição contra Maduro. 

Sumiço

A família do general Raúl Baduel denunciou que ele está desaparecido há 12 dias. Baduel foi comandante-geral do Exército da Venezuela de 2004 a 2006, mas rompeu com o chavismo em 2007, quando se posicionou contra a reforma constitucional proposta pelo então presidente Hugo Chávez.

Perseguido pelo regime venezuelano, ele foi preso em 2009, acusado de corrupção e apropriação indébita. Baduel foi condenado a oito anos de cadeia, além da perda de seus direitos políticos. “Nos últimos 12 dias, procuramos respostas até fora de Caracas, mas não sabemos onde ele está”, afirmou Adolfo Baduel, filho do general. / EFE e AFP

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