Acervo pessoal
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Maduro reprime o próprio Exército para manter poder

Militares de médio e baixo escalões e suas famílias são cada vez mais afetados pela crise; governo diz que abortou dez tentativas de golpe

Anatoly Kurmanaev e Isayen Herrera / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2019 | 21h31

Uma semana após ser detido pelo serviço de informações da Venezuela, um capitão da reserva foi levado a um tribunal militar. Era um homem alquebrado, numa cadeira de rodas e mostrando sinais de tortura. “Me ajude”, sussurrou para o advogado. 

O capitão, Rafael Acosta, morreu no mesmo dia. Foi enterrado três semanas depois, em 10 de julho, sob protestos da mulher. Os cinco membros da família autorizados a comparecer ao funeral não puderam ver o corpo, envolvido num saco de plástico marrom. Acosta morreu de traumatismos variados e eletrocução, segundo trechos da autópsia que acabaram sendo revelados. 

O próprio governo admitiu o uso de força excessiva contra o capitão. Sua morte é um indício de como o governo do presidente Nicolás Maduro transformou-se num brutal aparelho de repressão contra suas Forças Armadas, agindo sem limites num esforço para manter o controle sobre os militares e, por meio deles, do Estado.

A cúpula militar vem declarando repetidamente lealdade a Maduro. Mas, nos últimos dois anos, à medida que a economia do país rico em petróleo vem afundando e a maioria dos venezuelanos se vê sem comida e remédios, facções no interior das forças de segurança fizeram pelo menos cinco tentativas de depor ou assassinar o presidente. 

O governo diz que abortou pelo menos mais dez tentativas de golpe nesse período, incluindo uma trama da qual Acosta e cinco outros oficiais foram presos, acusados de participação. 

A imprensa estatal venezuelana chama a sequência de tentativas, reais e imaginárias, de “golpe continuado”. O Partido Socialista de Maduro aproveita o clima para justificar vigilância permanente, detenção e tortura daqueles considerados inimigos. O conceito inclui os descontentes no interior das Forças Armadas Venezuelanas, de 160 mil homens, segundo defensores de direitos humanos da ONU e de parentes de vítimas.

“Os abusos por parte de oficiais aumentaram porque eles se sentem fortalecidos ao representarem uma ameaça real ao governo de Maduro”, disse nos EUA o general Manuel Cristopher Figuera, ex-chefe da inteligência que desertou em abril. 

Atualmente, 217 oficiais da ativa e da reserva estão em prisões venezuelanas, incluindo 12 generais, segundo a Coalizão para Direitos Humanos e Democracia, com base em Caracas. 

A coalizão documentou 250 casos de tortura por parte das forças de segurança contra oficiais, seus parentes e ativistas de oposição desde 2017. Muitas das vítimas passaram anos na prisão, sem julgamento. Umas poucas foram condenadas por crimes e a maioria não foi nem sequer acusada, segundo a organização. Quanto mais fraco o governo se sente, “mais dura se torna a tortura contra pessoas que ele considera perigosas”, disse a advogada da coalizão Ana Leonor Acosta, que não tem parentesco com o capitão Acosta. 

Os abusos chamaram a atenção internacional no mês passado, quando Michelle Bachelet, comissária de direitos humanos da ONU, divulgou um contundente relatório dizendo que o governo venezuelano sujeita prisioneiros considerados opositores políticos a “choques elétricos, sufocação com sacos plásticos, simulação de afogamentos, privação de alimento, posições estressantes e temperaturas extremas”.

Desde que Maduro assumiu o poder, a Venezuela perdeu dois terços do PIB, segundo o FMI. A situação piorou depois que o governo Trump, em resposta à retórica de Maduro e a suas táticas repressivas, passou a apoiar a oposição e impôs sanções que golpearam a indústria petrolífera. 

A ONU estima que 4 milhões de venezuelanos fugiram das deterioradas condições do país. Enquanto Maduro procura garantir a lealdade de oficiais com promoções e contratos lucrativos, militares de médio e baixo escalões e suas famílias são cada vez mais afetados pela crise. Isso está deixando-os agitados. “A ira vem do interior dos quartéis e as fileiras mais baixas estão infestadas pela dissidência”, disse a advogada Ana Acosta. “As Forças Armadas estão tomadas por paranoia e suspeita e há uma divisão entre os que apoiam e os que não apoiam o governo.” 

O Ministério da Informação venezuelano não respondeu ao detalhado pedido de esclarecimentos sobre acusações de tortura enviado pelo jornal The New York Times. O escritório do procurador-geral, que conduz as investigações criminais e sobre direitos humanos, também não quis comentar. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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