Twitter/JuanGuaidó
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'Maduro resiste no cargo porque os militares são o governo', diz analista

Para cientista político venezuelano, Guaidó tem tido dificuldade em cooptar generais em virtude do fácil acesso dos generais aos recursos do Estado venezuelano

Entrevista com

Benigno Alarcón, diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2019 | 05h00

O autodeclarado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, aposta desde janeiro na ruptura de setores das Forças Armadas com o chavismo para derrubar Nicolás Maduro, mas até agora os poucos apoios que têm recebido são insuficientes. Para o diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidade Católica Andrés Bello, Benigno Alarcón, isso ocorre porque durante a transformação do chavismo num regime autoritário os militares tornaram-se o governo de facto do país.

Maduro está esperando o desgaste de Guaidó em vez de prendê-lo?.

Sim. E essa é uma aposta que o governo sempre fez. Apostar no desgaste do tempo. E desta vez conta a favor dessa estratégia as ameaças feitas pelos EUA caso algo aconteça a Guaidó. Tem sido muito evidente que as reações internacionais, em sua maioria, são favoráveis à oposição. A UE e a OEA também têm defendido a presidência interina de Guaidó. Por isso o governo tem evitado tomar medidas como tomou no passado, quando prendeu outros líderes da oposição.

Por que os EUA disseram publicamente que houve negociações com aliados próximos de Maduro?

Declarações de funcionários americanos com ameaças contra membros do regime não precisam necessariamente ser cumpridas, mas o que Bolton fez ontem foi além disso. E imagino que dentro da cultura americana, principalmente na burocracia de governo, a questão da mentira, do blefe, é vista de uma maneira muito negativa. O que sim me surpreende é que o governo americano tome decisões com base em negociações com funcionários venezuelanos que sempre demonstraram pouco apego à sua palavra. Tomar decisões com base em promessa de um funcionário venezuelano como Padrino ou Maikel Moreno, que tem sobre si todos os custos que implicam sua saída do regime, é um pouco ingênuo e bem difícil de compreender.

E qual o papel de Rússia e Estados Unidos nessa crise?

No caso venezuelana, a geopolítica está em segundo plano. Não por que seja irrelevante, mas em processos nos quais a geopolítica teve um papel muito maior, como a queda do Muro de Berlim e da União Soviética, por exemplo, as fraturas foram internas. Aqui a relevância geopolítica é menor. Os principais aliados de Maduro - Rússia, China, Turquia e Irã - dão algum apoio ao regime, mas não é um apoio integral como ocorre com Cuba, por exemplo, para quem o resultado dessa crise é uma questão existencial.

Como o controle dos militares sobre a economia se relaciona com sua lealdade a Maduro?

Temos de entender primeiro que isso não é produto do acaso. É uma estratégia e isso não é exclusivo da Venezuela. Isso é comum em regimes autoritários, principalmente na África e no Oriente Médio. Na Venezuela a participação dos militares na economia começou a ser construída quando o país sai de um sistema semidemocrático, quando o voto ainda tinha importância, mas com o Executivo controlando os outros poderes, para um regime totalmente totalitário, onde a importância do voto é marginal. Aí, o governo oferece uma dinâmica clientelista para quem pode mantê-lo no poder por meio da força. E aí o Exército deixa de ser neutro e apolítico e começa a fazer parte do governo, com acesso aos recursos do Estado. Esse acesso garante a lealdade dos militares. É o caso da Síria e do Egito, por exemplo. Hoje, as FANB são o governo, seguindo o manual dos regimes autoritários.

E é por isso que está sendo tão difícil para Guaidó provocar divisões nas Forças Armadas, não?

Sim, porque uma divisão vertical, onde um comandante, rompe com o governo e traz com ele seus governados, tornou-se improvável na Venezuela. Hoje a estrutura das FANB não é piramidal, mas horizontal, em formato de rede, onde vários “caciques” comandam suas respectivas “tribos” ( a Venezuela tem mais de 2 mil generais). Nesse cenário, casos de insubordinação de soldados com patentes mais baixas, torna-se mais comum. E é exatamente o que está acontecendo com os militares que se juntam a Guaidó. É a parte inferior dessas “tribos” que lhe jura lealdade.

 

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