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Maduro se esquiva das críticas sobre crise venezuelana dançando salsa

Em programa na TV, presidente dança e ataca críticos em tentativa de se aproximar de setores populares que abanonaram o chavismo na eleição legislativa

O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2016 | 12h48

Ao ritmo da salsa, o presidente venezuelano Nicolás Maduro faz a esposa rodopiar diante das câmeras, fazendo ouvidos moucos aos que lhe dizem que, enquanto ele festeja, a Venezuela desaba. Dançando salsa e outros ritmos como guaguancó, joropo e até reggaeton como apresentador de rádio e TV, ativo em todas as redes sociais, Maduro impulsiona uma nova estratégia de comunicação que seus adversários consideram um abuso diante da calamidade em que se encontra o país.

"Dizem que estou louco porque danço salsa. Ah! Mas se Obama sai dançando, ele não é louco, é legal", queixou-se antes de tirar para dançar "Cilita, a bonita" - como chama a esposa, Cilia Flores - em seu programa de TV, "Em contato com Maduro".

"Levantem a mão todos os que dançam salsa! Todos nos declaramos loucos", continua, causando furor a um público de estudantes que, entre aplausos, incentivam, "Que baile!".

Com um punho à frente e depois outro para cima, agitando os quadris enquanto desce e sobe, Maduro ensaiou também alguns passos de "Punto, palito y me lo gozo", a dança da moda na Venezuela que os estudantes lhe ensinaram.

Com a "primeira combatente", como se refere à primeira-dama, Maduro transborda serenidade e bom humor, em plena crise econômica e agitação política pela recente suspensão de um referendo revogatório contra ele.

Não é a primeira vez que ele dança diante das câmeras, mas as críticas se intensificaram, após lançar, este mês, o programa de rádio "A hora da salsa" no dia em que seus opositores planejavam submetê-lo a um julgamento parlamentar, culpando-o pela crise.

"É um ridículo. Nós nos sentimos ofendidos. Debocha do povo: ao invés de gastar em programas, deveria trazer remédios", disse à AFP Euro Bermúdez, de 62 anos, ao sair de um banco onde recebeu a pensão.

Mas Orlando Zacarías, motorista de 49 anos, avalia que Maduro "pouco a pouco está entrando em cada venezuelano para transmitir sua mensagem".

Pelas redes sociais circulam "memes" em que aparece dançando ao lado de uma vítima de um crime, em uma longa fila de pessoas à procura da comida escassa e ao lado de um casal que se despede porque um dos dois vai deixar o país.

Maduro assegura que seus programas levam "a voz da verdade" e acusa os veículos nacionais e estrangeiros de se dedicarem a uma campanha de desprestígio contra o seu governo.

"É uma revolução comunicacional", anunciou, ao explicar que aumentará sua presença em veículos tradicionais, nas redes sociais e até batendo de porta em porta. Chegou, inclusive, a convidar à Venezuela o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.

"Em contato com Maduro", que era emitido à meia-noite das terças-feiras, agora vai ao ar aos domingos, assim como o "Alô presidente", de seu antecessor, Hugo Chávez. O último durou quatro horas e contou com uma orquestra de salsa.

"A hora da salsa" é transmitido ao meio-dia pela rádio presidencial, no Facebook e no Periscope. Dura mais de duas horas e ali o presidente apresenta canções e fala tanto de música quanto de aumentos salariais e ações judiciais.

Através da salsa, Maduro - ex-motorista de ônibus que completa 54 anos nesta quarta-feira - tenta se aproximar de setores populares que o castigaram nas eleições legislativas de dezembro passado, quando a oposição arrasou, segundo o psicólogo social Ricardo Sucre.

"Quer se mostrar seguro e relaxado, não como alguém que vai cair do governo", disse Sucre. Mesmo sem carisma, "Chávez o escolheu como sucessor porque consegue enfrentar as dificuldades sem aparentar nervosismo."

Maduro dedica canções a seus adversários, sobretudo ao líder parlamentar Henry Ramos Allup: "Tú loco loco, y yo tranquilo", de Roberto Roena. E desafiando seus inimigos, em seus programas faz tocar a canção de Ray Barretto que assume como marca pessoal: "Indestructible". / AFP

 

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