EFE/LEONARDO MUÑOZ
EFE/LEONARDO MUÑOZ

‘Maduro tem usado oferta de diálogo para se aferrar ao poder na Venezuela’

Presidente colombiano, que deixará cargo em agosto após 8 anos, discutirá em Brasília migração venezuelana

Entrevista com

Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

17 Março 2018 | 05h00

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, deixará o poder em agosto, após dois mandatos de quatro anos. Seu principal legado é a negociação que levou ao fim das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), razão pela qual ele ganhou o Nobel da Paz.

Em contrapartida, é provável que Santos tenha de ampliar as explicações à Justiça sobre o papel da Odebrecht no financiamento de sua última campanha. Acusado de ter recebido US$ 1 milhão na votação de 2014, ele alega inocência. 

O principal inimigo político de Santos é o ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), de quem foi um ministro da Defesa linha-dura. Na eleição legislativa de domingo, o grupo de Uribe saiu vencedor e tornou-se a principal força política do Congresso com a promessa de rever o acordo com a guerrilha. 

Uribe apoia Iván Duque nas eleições marcadas para 27 de maio e 17 de junho. O principal adversário é Gustavo Petro, um candidato de esquerda com popularidade inusual em um país em que a desaprovação à guerrilha historicamente afundou as pretensões de candidatos não conservadores. O vencedor terá como um dos principais desafios o ingresso de milhares de refugiados venezuelanos. Santos, que tratará do tema em Brasília na terça-feira com o presidente Michel Temer, respondeu as seguintes perguntas por e-mail:

Como o sr. vê o processo eleitoral colombiano, polarizado entre direita e esquerda?

A polarização é negativa em todas as sociedades, pois as paralisa e impede que avancem em torno de consensos mínimos. Fiz todo o possível, sem êxito, para evitar essa polarização daninha. Defendo uma terceira via, de centro: tanto mercado quanto possível e tanto Estado quanto necessário. Defendo a disciplina no campo fiscal e a audácia no terreno social. Considero os extremos negativos e espero que a Colômbia continue construindo sobre o já construído. 

Como Colômbia e Brasil podem atuar juntos na crise dos refugiados venezuelanos? 

A crise humana que a Venezuela vive é dolorosa para todos. Resulta diretamente das decisões equivocadas do presidente Nicolás Maduro. Brasil e Colômbia, com os demais países da região e do mundo, devem continuar trabalhando para encontrar uma saída pacífica e tomara que imediata para essa crise. 

Qual é o principal desafio que a Colômbia enfrenta com a chegada de tantos venezuelanos?

Estamos enfrentando uma situação sem precedentes com a chegada de centenas de milhares de migrantes venezuelanos. Nós os acolhemos com generosidade. Mas temos de fazer isso de maneira controlada e segura. Estamos abertos ao apoio da comunidade internacional. O problema é sério e tende a se agravar. 

É possível o diálogo com Nicolás Maduro? 

Não se deve nunca rejeitar a possibilidade de diálogo, mas na atual conjuntura não vejo muitas opções. Maduro tem utilizado a oferta de diálogo para se aferrar ao poder. 

Como o sr. avalia a acusação de que o Exército de Libertação Nacional (ELN) tem elo com a Venezuela?

Sabemos há muito tempo que alguns líderes do ELN estão na Venezuela. 

É possível garantir que não haja ingerência de autoridades venezuelanas no comando do ELN?

É impossível garantir isso. 

Como estão as negociações com o ELN?

Autorizei a equipe negociadora do governo a viajar a Quito para reiniciar o diálogo. Nossa disposição em buscar uma solução negociada que permita pôr fim ao conflito com o ELN continua firme. Trata-se, antes de tudo, de salvar vidas. 

Quanto à cooperação do Brasil no processo de paz na Colômbia, como o País pode ajudar agora, depois da assinatura do acordo? 

O Brasil vem nos apoiando desde o início da busca de paz e estou imensamente grato aos brasileiros e a seu governo por isso. Agora que, com o fim do conflito, estamos no processo de reconstrução da paz, a colaboração do Brasil no desenvolvimento do setor agrícola, investindo e criando oportunidades, é muito valiosa. 

Sua visita pode impulsionar novos acordos econômicos?

Nossa relação econômica e comercial é boa, mas sempre existe espaço para melhorar, aprofundar e ampliar intercâmbios. Esperamos que, com a atualização de nossos acordos de complementação econômica, o intercâmbio comercial supere US$ 4 bilhões neste ano. Continuaremos trabalhando para ampliar ainda mais esses acordos. Agora que superamos o conflito, há enormes oportunidades para se investir na Colômbia. Convido os empresários brasileiros a continuarem vindo a nosso país. Há setores, como o turismo e a tecnologia, em que certamente podemos fazer mais.

Qual é hoje o maior desafio para a relação Brasil-Colômbia? 

Os dois países atravessam um momento excelente em suas relações bilaterais. Mais que desafios, o que vejo são oportunidades para continuarmos trabalhando juntos em pontos de interesse comum como meio ambiente, proteção da Amazônia, comércio e intercâmbio cultural. Sem dizer que uma seleção de futebol com Brasil e Colômbia seria imbatível.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.