Maduro toma posse na Venezuela e líderes mundiais dão adeus a Chávez

Enquanto Nicolás Maduro liderava na Academia Militar uma emotiva cerimônia de funeral de Estado para o líder Hugo Chávez, a Sala Constitucional do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) emitia ontem uma sentença em Caracas nomeando-o presidente interino da Venezuela e autorizando-o a concorrer nas próximas eleições sem a necessidade de afastar-se do cargo.

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h31

Algumas horas depois, numa sessão extraordinária da Assembleia Nacional boicotada pela maioria da bancada da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), Maduro tomou posse da presidência e anunciou que encarregaria o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de organizar as próximas eleições (mais informações nesta página). No discurso de aproximadamente uma hora e meia, nomeou vice-presidente Jorge Arreaza, genro de Chávez e até ontem ministro de Tecnologia e Ciências.

Maduro reiterou o compromisso com a memória de Chávez e a continuidade da revolução bolivariana. "Temos demonstrado com fatos o quanto estamos aferrados e respeitamos a Constituição", discursou. "Convidamos todos os setores a apresentar seu candidato, seus candidatos se quiserem."

Pela interpretação de boa parte dos políticos da MUD, Maduro não poderia assumir como vice de Chávez, uma vez que o presidente, morto na terça-feira, não chegou a tomar posse formalmente. A oposição também argumenta que o candidato escolhido pelo líder bolivariano não poderia concorrer ao mesmo tempo em que exerce a presidência. O TSJ, dominado por juízes simpáticos ao governo, porém, deu luz verde total ao chavismo.

Candidato presidencial da MUD, o governador de Miranda, Henrique Capriles, convocou uma entrevista coletiva pouco antes da posse de Maduro para criticar duramente a decisão do TSJ. "O tribunal supremo cometeu uma fraude constitucional. Essa juramentação que vai se dar aqui é espúria", disse Capriles. "Senhores da imprensa internacional, não deixem que alguns o convençam de que aqui, na Venezuela, não está acontecendo nada."

"Essa decisão do tribunal não está na Constituição. Alguém não pode se tornar vice-presidente, depois se encarregar da presidência e, logo depois, tornar-se candidato-presidente", prosseguiu o candidato, que obteve 44% dos votos na eleição de 7 de outubro, vencida por Chávez. "Quem te elegeu, Nicolás?"

"Sabemos de onde vem isso tudo", continuou. "O governo da Venezuela não será controlado por Cuba." Após a entrevista de Capriles, moradores de edifícios em bairros mais elegantes de Caracas saíram às janelas batendo panelas em apoio ao candidato opositor. Ao mesmo tempo, cresciam os rumores de que Capriles poderia anunciar sua retirada da corrida eleitoral em protesto.

Também em entrevista coletiva, o porta-voz da MUD, deputado Ángel Medina, queixou-se do que qualificou de atropelos do governo e das declarações do ministro da Defesa Diego Molero, que exortou os militares a apoiar a eleição de Maduro. "Não compareceremos a essa sessão porque o que temos ouvido nos parece parte de um evento eleitoral", disse Medina. "À comunidade internacional dizemos que não podemos permitir que atos fúnebres se transformem em atos eleitorais, que pretendam levar a cabo um ato de campanha.

Emoção. A cerimônia fúnebre contou com a presença de mais de 30 chefes de Estado e de governo. O Brasil foi representado pelo chanceler Antonio Patriota, depois da decisão da presidente Dilma Rousseff de retornar ao País na madrugada de ontem. Com exceção de Dilma, da argentina Cristina Kirchner - que também se retirou antes da cerimônia - e de representantes do Paraguai, todos os líderes sul-americanos posaram ao lado do caixão de Chávez, na posição de guarda de honra, incluindo os não alinhados ao chavismo como Sebastián Piñera (Chile) e Juan Manuel Santos (Colômbia). O cubano Raúl Castro foi o primeiro a ser chamado pelo cerimonial para a homenagem. De fora do continente, estavam o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o bielo-russo Aleksandr Lukachenko.

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