Mãe de bombeiro morto trocou aposentadoria por ativismo

Maureen Santora criou bolsas de estudo para estudantes e escreveu livros infantis sobre 11 de setembro

Alessandra Corrêa, BBC

08 Setembro 2011 | 07h12

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

 

Em setembro de 2001, a professora americana Maureen Santora tinha um plano traçado para o futuro: viajar pelo país ao lado do marido, Al, no trailer que haviam acabado de comprar.

 

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Aos 55 anos de idade e com mais de 25 anos de serviço, ela aguardava ansiosa pelo dia 11 daquele mês, que marcaria o início das aulas em Nova York e, portanto, o primeiro dia oficial de sua aposentadoria.

Hoje, dez anos depois, Santora contabiliza inúmeras viagens pelos Estados Unidos, mas não da maneira como havia planejado. Na última década, ela percorreu o país como ativista em favor das famílias de vítimas dos atentados de 11 de setembro - que mataram quase 3 mil pessoas.

Seu filho, Christopher, foi um dos 343 bombeiros mortos nas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York - um dos alvos dos ataques, assim como o Pentágono, em Washington.

"Os atentados e esses dez anos que se seguiram mudaram minha vida de forma dramática", disse Santora à BBC Brasil. "Nunca pensei que me tornaria uma ativista."

Falar em nome das famílias das vítimas, porém, foi a maneira que ela o marido encontraram para superar a morte de Christopher e homenagear o filho.

"Se eu simplesmente tivesse murchado e morrido, sei que meu filho ficaria zangado comigo. Ele era uma pessoa muito franca, falava sem reservas. Por isso achei que essa seria a melhor maneira de honrar sua memória. Falar em seu nome, porque ele já não tem uma voz. E em nome das outras vítimas."

Mudança

Os planos de Santora começaram a mudar às 9h daquele 11 de setembro de 2001. "Estávamos na sala. Meu genro me telefonou e disse: 'Vá até a janela'", lembra.

Da casa dos Santora, no Queens, é possível ver a ilha de Manhattan. "Nós vimos o segundo avião bater no World Trade Center. E, depois, as torres ruírem."

Naquele momento, ela soube que o filho estava no local dos atentados. Christopher havia saído para o trabalho na noite anterior e deveria voltar para casa pouco depois das 9h na manhã seguinte, mas não apareceu. Foi somente no dia seguinte, porém, que ela soube que o filho estava na lista de desaparecidos.

Único homem entre os cinco filhos dos Santora, Christopher, 23 anos, sonhava desde menino em seguir a carreira do pai, que se aposentou em 2000 após servir 40 anos como bombeiro.

"Eu nunca fiz a conexão de que ele poderia estar morto. Eu estava convencida de que ele havia batido a cabeça, sofrido de amnésia, talvez se ferido. Mas simplesmente não conseguia aceitar a possibilidade de que ele estivesse morto", diz.

Corpo

Ao todo 15 homens do Engine 54, o quartel do 9º Batalhão do Corpo de Bombeiros do qual Christopher fazia parte, morreram no 11 de setembro. Três dias após os atentados, um dos corpos foi identificado como sendo o do bombeiro José Guadalupe.

Santora foi ao funeral de Guadalupe, no início de outubro, enquanto continuava acreditando que o filho ainda voltaria para casa. No fim de novembro, porém, ela foi contactada por um dos legistas que trabalhavam na identificação dos restos mortais das vítimas.

"Ele veio até a nossa casa e disse: 'Cometemos um erro terrível. Enterramos seu filho no túmulo de outra pessoa'. E era Guadalupe, o bombeiro em cujo funeral eu havia ido", relembra.

A confirmação da morte do filho foi o primeiro passo para que Santora começasse a aceitar a perda e decidisse abraçar a causa das vítimas.

"Não sei onde eu estaria hoje se não tivesse a confirmação. E ainda há 1.122 famílias que nunca tiveram qualquer prova. Rezo por elas todos os dias", diz, referindo-se às famílias de vítimas que nunca foram identificadas.

Causas

Santora diz que, após relutar, ela e o marido decidiram receber a indenização paga pelas autoridades pela morte do filho e, com o dinheiro, criaram em 2002 um fundo destinado a oferecer bolsas de estudos a estudantes da rede escolar de Nova York.

"Para ajudar esses estudantes a realizar seus sonhos, como nosso filho fez ao se tornar bombeiro", diz.

Ela também escreveu três livros sobre os atentados e a perda do filho, destinados especialmente ao público infantil.

Uma década depois dos atentados, Santora diz que as famílias das vítimas ainda têm várias questões não-solucionadas e causas pelas quais lutar. Entre os temas polêmicos, ela cita os planos de construir uma mesquita próxima ao Marco Zero - local dos atentados.

"Não tenho qualquer animosidade com pessoas que sigam a fé muçulmana. Mas acredito que há um motivo oculto no fato de insistirem em construir a mesquita nesse exato local. Considero ofensivo e vamos continuar a lutar contra", afirma.

Encontro com Obama

Em maio deste ano, Santora diz ter recebido "o primeiro sinal de justiça" para as famílias das vítimas, com a morte do líder da rede Al-Qaeda, Osama Bin Laden - morto em uma operação de forças americanas no Paquistão.

"Depois que o presidente fez o anúncio, na TV, Al e eu ficamos ali parados, por cerca de 20 minutos, em silêncio absoluto", diz. "E então fui tomada por uma sensação de alegria e satisfação, e podia ouvir a voz do meu filho dizendo: 'Nós o pegamos, mãe'."

Logo após a morte de Bin Laden, Santora e alguns outros familiares de vítimas puderam se encontrar com o presidente Barack Obama, em uma cerimônia no Marco Zero.

"Pude agradecer a ele por ter permitido que nossos militares fizessem o que sabem fazer de melhor", diz. "Ele (Bin Laden) atacou o nosso país, e foram os militares americanos que o capturaram."

Santora afirma, porém, que os Estados Unidos não estão mais seguros por causa da morte de Bin Laden. "Nenhum de nós está mais seguro. A Al-Qaeda ainda está viva. Ainda precisamos ser vigilantes."

Futuro

Neste dia 11 de setembro, como faz há dez anos, Santora irá com a família - são quatro filhas e cinco netos - ao Marco Zero, para acompanhar a cerimônia com a leitura dos nomes de todas as vítimas dos atentados. Também vai passar no quartel do Corpo de Bombeiros onde Christopher servia e assistir a uma missa em homenagem aos mortos na catedral de St. Patrick.

Para marcar a data, Santora vai realizar ainda uma maratona de leituras de seus livros, com a renda destinada ao fundo de bolsas de estudos que ela e o marido mantêm e à distribuição de livros para as escolas de Nova York.

Passados 10 anos da tragédia, ela diz ter aprendido a viver cada dia como se fosse o último, mas afirma que nunca vai se recuperar totalmente.

"Eu perdi meu único filho. Hoje eu consigo lidar melhor com isso hoje do que há 10 anos. Mas é algo que nunca vou superar." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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