Mãe diz que Vieira de Mello não queria servir no Iraque

Sérgio Vieira de Mello não queria ir para o Iraque. Quem garante é a mãe dele, Gilda Vieira de Mello, 85 anos, que falou com a imprensa pela primeira vez desde o atentado contra a sede da ONU no Iraque, no dia 19. ?Ele não queria ir para o Iraque. Isso é muito importante. Porque elehavia sido nomeado, oito meses antes, para o cargo de alto comissário para Direitos Humanos, e estava já muito entrosado com o trabalho. Então, queria continuar com isso, e não ir para o Iraque. Eu pedi muito: ?Não vai, meu filho??, disse ela. Vestida de preto, Gilda seemocionou em diversos momentos durante a entrevista, em sua casa, em Copacabana, na zona sul do Rio.Ela disse que, ao ler uma entrevista publicada dois dias antes do atentado, teve certeza de que perderia o filho. ?Na última frase, eupercebi que ele se despedia do mundo e principalmente de mim. Ele dizia: ?eu vou para a cidade mais perigosa do Iraque, mas me deram umcolete à prova de balas e eu peço que Deus me acompanhe como sempre?. E todos sabem como acabou.?Desde então, Gilda deixou de ler os jornais e revistas e parou de assistir televisão. Até agora, ela também não leu as centenas de cartase mensagens de condolências recebidas. ?Não tive coragem. Apenas anoto os nomes para agradecer.?Gilda lembrou que Vieira de Mello esteve no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, defendendo o estabelecimento de um governo formadopor iraquianos como uma forma de reduzir a tensão no País. Na ocasião, ele citou as mortes de soldados americanos em emboscadas e atentados.De acordo com Gilda, ele visitaria as principais cidades do Iraque com a mensagem de que estava lá para ajudar.A mãe do diplomata afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi ?extremamente carinhoso? com ela. ?Ele se referiu ao meu filho commuita admiração. Fiquei muito agradecida a ele.? Gilda considerou ?muito simpático e muito gentil? o gesto do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que veio ao País para acompanhar o velório de Vieira de Mello. ?Ele me abraçou e beijou. Além de chefe de Sérgio, era seu amigo de carreira.?Viúva há 30 anos do diplomata Arnaldo Veira de Mello, Gilda lembrou que hoje deve nascer sua bisneta, filha de seu neto André Simões. Elapediu desculpas por não ter falado antes, agradeceu à imprensa e ao mundo pelo carinho com que seu filho foi tratado, e afirmou estarlúcida ?apesar dos muitos remédios?. Diante das câmeras, Gilda ainda conseguiu brincar. ?Na minha idade e nessa situação, é difícil posar para fotografias.?Missa - Às 19 horas, na Igreja da Ressurreição, em Copacabana, foi celebrada a missa de sétimo dia em homenagem a Vieira de Mello. A namorada do diplomata, Carolina Larriera, que também é funcionária da ONU e estavano local do atentado, em Bagdá, passou toda a cerimônia abraçada a Gilda. Quebrando uma tradição, o padre usou paramentos verdes em vez deroxos, adequados às missas de sétimo dia. O religioso afirmou que a cor verde representa a esperança, sentimento que, disse, norteou a vida de Vieira de Mello.

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