Victor J. Blue/The New York Times
Victor J. Blue/The New York Times

Mães contam que não foram reconhecidas pelos filhos após meses de separação nos EUA

Reuniões de imigrantes com seus filhos têm sido marcadas por confusão e decepção; pais relatam crianças confusas e traumatizadas

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 16h17

PHOENIX - Uma mãe esperou quatro meses para abraçar seu filho. Outra esperou três meses para ver sua filha novamente. Quando as reuniões finalmente ocorreram, na terça-feira 10, em Phoenix, as mães contam ter sido recebidas com gritos de rejeição de seus filhos. 

"Ele não me reconheceu", disse Mirce Alba Lopez sobre seu filho de 3 anos, Ederson, com os olhos cheios de lágrimas. "Minha alegria se transformou temporariamente em tristeza."

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Pala Milka Pablo não foi diferente. Sua filha de 3 anos, Darly, gritou e tentou se livrar do abraço da mãe. "Eu quero a senhorita. Eu quero a senhorita", gritou Darly, chamando a assistente social do abrigo onde ficou desde que foi separada da mãe.

As reuniões foram ordenadas por um tribunal na Califórnia e ocorreram quando o governo disse que libertaria centenas de imigrantes, que passariam a usar tornozeleiras eletrônicas. Diante das ordens judiciais, autoridades federais disseram que não poderiam manter presas todas as famílias detidas e afirmaram que suas mãos estavam atadas diante das exigências de libertar crianças após 20 dias ou de mantê-las com os pais ou responsáveis.

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Funcionários da administração Trump também dizem ter parado de processar criminalmente os migrantes adultos que entram nos Estados Unidos ilegalmente. "Pais com filhos menores de 5 anos estão sendo reunidos, libertados e colocados em um programa de detenção alternativo", disse Matthew Albence, diretor executivo adjunto do departamento de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês). Segundo ele, isso significa que os migrantes receberão tornozeleiras e serão "liberados na comunidade".

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Autoridades do governo disseram que estavam se esforçando para cumprir o prazo, que terminou na terça-feira 10, para reunir as 102 crianças com menos de 5 anos de idade com seus pais. Apenas cerca de um terço das reuniões haviam ocorrido até a publicação desta reportagem. E as que ocorreram foram caóticas.

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Em Phoenix, confusão e desgosto marcaram os encontros. Enquanto Mirce e Milka aguardavam, com seus respectivos filhos, para embarcar em um ônibus, as crianças - que não eram parentes - se chamavam de irmão e irmã. Ainda não haviam chamado suas mães de "mami" (em espanhol), mas estavam mais calmas, recebendo carinho e alimento. 

Darly, que havia sido ensinada a ir sozinha ao banheiro antes da separação, havia regredido para as fraldas. Ederson pulava no colo da mãe, entusiasmado. As duas mães estavam usando tornozeleiras.

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"Quero ir com minha irmãzinha", disse ele, apontando para uma menina de 13 meses, chamada Carmen, nos braços de seu pai, o hondurenho Deniz Espinoza, libertado depois de 20 dias desde a separação. "Veja. Ele acha que esses são seus irmãos", disse Mirce, apontando para as outras crianças.

Segundo Albence, as tornozeleiras vão rastrear as famílias libertadas, mas ele acrescentou que o ICE considera outros métodos para garantir que os imigrantes compareçam ao tribunal. Atualmente, cerca de 80 mil imigrantes nos EUA usam dispositivos de rastreamento, incluindo aqueles que foram libertados antes da promulgação da política de tolerância zero, em abril. / NYT

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