Mães da Praça de Maio serão investigadas

Justiça pede detalhamento bancário e contratos após escândalo de desvio de verbas públicas

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2011 | 00h00

A Fundação das Mães da Praça de Maio foi atingida por seu primeiro grande escândalo de corrupção. Sergio Schoklender, ex-braço direito da líder da organização, Hebe de Bonafini, foi denunciado na Justiça por suposto enriquecimento ilícito e desvio de fundos públicos em várias operações imobiliárias ilegais. Segundo a edição de ontem do jornal La Nación, a Justiça vai investigar todas as contas bancárias e contratos da entidade.

O escândalo promete abalar a imagem do governo de Cristina Kirchner, aliada das Mães. As denúncias, feitas pela imprensa portenha e investigadas pela Justiça, indicaram que Schoklender - que administrava fundos de US$ 300 milhões que o governo federal tinha destinado às Mães para a construção de casas - enriqueceu de forma exponencial.

Além de ser o diretor de uma empreiteira que se encarregava das obras das Mães em projetos de casas populares, Schoklender teria uma luxuosa chácara na região de Buenos Aires, quatro iates (avaliados entre US$ 40 mil e US$ 420 mil), um Porsche, uma Ferrari, uma fazenda na Província de Chubut e um avião Piper. Dias atrás, quando o escândalo começou a crescer, Schoklender tentou se defender: "Só tinha um iatezinho...".

Nesta semana, com a ampliação do escândalo, o subsecretário federal de Obras Públicas, Abel Fatala, tentou colocar panos quentes na crise afirmando que os fundos fornecidos pelo governo Kirchner à Fundação Sonhos Compartilhados (nome da divisão da organização das Mães que constrói as casas populares) foram totalmente destinados às obras. No entanto, o governo admitiu que não existem controles diretos sobre a construção das moradias.

Segundo o Departamento Nacional de Contratos, só no setor da construção civil - onde realiza obras sem licitações públicas prévias - o faturamento da organização das Mães da Praça de Maio cresceu 45% em quatro anos.

O juiz federal Marcelo Martínez de Giorgi exigiu detalhes da movimentação bancária da organização e pediu cópia de todos os contratos para construção de moradias. Ele ainda solicitou toda a documentação da Fundação Sonhos Compartilhados para checar a legalidade do projeto.

Os principais partidos da oposição pediram à Justiça que impeça Schoklender de sair do país. Rumores no âmbito judiciário indicam que Schoklender poderia ser detido nos próximos dias.

Empreendedor. Schoklender ajudou a transformar a entidade numa grande empresa, deixando de lado a busca pelos desaparecidos da ditadura para investir em educação (possui a Universidade das Mães), na mídia (uma estação de rádio), além da construção civil (programa de casas populares com subsídios do governo).

Em troca do respaldo financeiro do governo Kirchner, Bonafini transformou a organização das Mães em uma espécie de divisão encarregada de realizar constantes manifestações de respaldo ao governo.

"Ninguém prejudicou tanto as Mães da Praça de Maio", afirmou o analista político Jorge Lanata. O historiador Luis Alberto Romero considera que a corrupção do governo Kirchner expandiu-se às Mães, antes símbolo da luta por direitos humanos.

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