Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Mães da Praça de Maio teriam recebido dinheiro de Chávez

Promotoria da Argentina suspeita que organização tenha obtido pelo menos US$ 1 milhão

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

A Promotoria argentina investiga o suposto financiamento que as Mães da Praça de Maio teriam recebido do presidente venezuelano, Hugo Chávez. O promotor federal Raúl Pleé pediu um relatório detalhado de toda a verba recebida do exterior pela organização.

A investigação ganhou força depois das denúncias feitas, na semana passada, por deputados da oposição venezuelana, que suspeitam que Chávez teria enviado pelo menos US$ 1 milhão para a organização. O dinheiro teria sido utilizado para a criação da "cátedra de pensamento bolivariano" da Universidade das Mães da Praça de Maio.

Nas visitas de Chávez a Buenos Aires, a líder da organização, Hebe de Bonafini, é presença constante. Ela ainda visita Caracas com frequência. Os deputados venezuelanos dizem que Hebe, fundadora da entidade, "é uma senhora mimada por Chávez".

Nos últimos anos, as Mães da Praça de Maio deixaram de lado a procura por filhos desaparecidos durante a ditadura e ampliaram suas atividades, transformando-se em uma empresa com empreendimentos na área de educação e construção civil. Elas também transformaram-se em uma organização que prepara manifestações favoráveis à presidente Cristina Kirchner.

Corrupção. As investigações sobre o suposto financiamento bolivariano coincidem com o escândalo de corrupção que atingiu a organização, cujo protagonista é Sergio Schoklender, famoso parricida do início dos anos 80 que, em meados da década de 90, ao sair da prisão, transformou-se em braço direito de Hebe.

Nas últimas semanas, a Justiça levantou suspeitas sobre desvio de fundos públicos ao fazer o levantamento dos bens de Schoklender. Ele controlava quase US$ 200 milhões que o governo entregava às Mães da Praça de Maio para a construção de casas populares.

Schoklender é investigado por movimentos bancários milionários. Promotores suspeitam que a verba recebida pelas seus tenha sido usada para lavagem de dinheiro.

Hebe afirma que não sabia de nada. No entanto, o juiz encarregado do caso, Norberto Oyarbide, disse que é preciso investigar se ela é responsável pelo uso ilegal dos fundos.

Ontem, deputados do partido de oposição Proposta Republicana, do prefeito portenho Maurício Macri, preparavam-se para formalizar um pedido na Câmara dos Deputados para que a entidade detalhe o uso das verbas.

Os vínculos entre Chávez, o ex-presidente Nestor Kirchner e a presidente Cristina são intensos. Entre 2005 e 2008, o venezuelano foi o único comprador estrangeiro de títulos da dívida pública argentina. No total, adquiriu US$ 5,5 bilhões em bônus. Em troca, Chávez recebeu apoio político dos Kirchners para a entrada da Venezuela no Mercosul.

PARA LEMBRAR

Em 2007, os governos Kirchner e Chávez foram abalados pelo "escândalo da maleta". Cerca de US$ 790 mil foram enviados da Venezuela para a Argentina em um avião alugado pela Casa Rosada. Há pistas do envio irregular de pelo menos US$ 5 milhões de Caracas a Buenos Aires. Venezuelanos detidos pelo FBI em Miami disseram que o dinheiro financiaria a campanha presidencial de Cristina.

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