AFP PHOTO / EITAN ABRAMOVICH
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Mães da Praça de Maio transformam ato histórico em protesto contra Macri

Protesto número 2 mil da organização - realizado semanalmente desde 1977 - extrapolou os tradicionais de pedido por 'memória, verdade e justiça' e criticou o presidente argentino, considerado um 'inimigo' da entidade

O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2016 | 12h00

BUENOS AIRES - Em um grande ato, carregado de críticas ao governo de Mauricio Macri e à situação econômica da Argentina, as Mães da Praça de Maio realizaram na quinta-feira, 11, sua manifestação de número 2 mil, uma ação que realizam desde 1977 na busca de justiça para as vítimas da ditadura no país.

Devido à aglomeração que deixou em caos a Praça de Maio, as Mães tiveram que subir em uma caminhonete para completar o percurso que realizam a pé toda quinta-feira para pedir "memória, verdade e justiça" e lembrar as 30 mil pessoas que, segundo calculam os organismos de direitos humanos, desapareceram durante a última ditadura argentina (1976-1983).

Milhares de pessoas, partidos políticos e organizações sindicais acompanharam as ativistas pela praça entre gritos de "30 mil companheiros detidos desaparecidos, presentes" e "Macri, lixo, você é a ditadura".

Após completar o circuito, a presidente da associação, Hebe de Bonafini, subiu ao palco central e transformou seu discurso em um protesto contra a gestão do atual presidente da Argentina e em uma alegação em defesa dos governos kirchneristas.

"Esta pátria, nossa pátria, deve aos desaparecidos uma defesa. Vamos ter de encher muitíssimas praças para defendê-los", declarou a histórica dirigente, antes de anunciar que a associação voltará a marchar contra o atual Executivo.

A dirigente lembrou que, após a posse do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), pararam de fazer as passeatas contra o governo porque na Casa Rosada tinham encontrado um "filho", e acrescentou que, nos últimos oito meses, nesse mesmo local, têm um "inimigo".

"Néstor e Cristina (Kirchner) nos deram 12 anos de grande felicidade. Eu escrevi em 1981 uma carta que dizia que um filho nosso ocuparia a poltrona da Casa Rosada, e assim foi com Néstor e Cristina, eles são nossos filhos", comentou a ativista de 87 anos.

A manifestação de quinta começou atrasada justamente porque Cristina visitou a sede da associação horas antes do histórico ato: "Hoje Cristina nos visitou, estivemos quase duas horas com ela porque ela é também nossa filha", comentou Hebe.

"Nossos filhos foram revolucionários da vida, da história e da humanidade", acrescentou a titular da associação, que atualmente é alvo de uma causa judicial que investiga supostos desvios de fundos em um plano estatal de casas sociais que foi atribuído pelo governo de Cristina a uma fundação das Mães da Praça de Maio.

Hebe também lembrou emocionada sua luta em defesa dos direitos das vítimas da ditadura: "É pesado levar em cima dos ombros tantos filhos, mas é tão lindo, tão incrível e tão único...", descreveu. "Os 30 mil desaparecidos, os 15 mil fuzilados, os 8,9 mil presos, passaram a ser nossos filhos. Não há no mundo outras mulheres que como nós possam, em nosso coração e em nosso corpo, levar tanta responsabilidade por tantos filhos que amamos e que seguimos defendendo", bradou.

As manifestações destas mulheres começaram em abril de 1977, quando um grupo de mães de desaparecidos pedia uma audiência com o então presidente Jorge Rafael Videla para saber onde estavam seus filhos. Como forma de manifestação, 14 mulheres se reuniram na Praça de Maio, localizada em frente à Casa Rosada, sede do Executivo argentino.

No entanto, a ditadura tinha estabelecido o Estado de sítio e proibia as congregações de três ou mais pessoas na via pública, motivo pelo qual os policiais informaram a essas mulheres que não podiam permanecer paradas em frente à entrada da casa de governo.

Elas decidiram então começar a dar voltas ao redor da Pirâmide de Maio, um monumento branco situado no centro da praça, que desde então se transformou em um ícone para os argentinos da luta não violenta contra a ditadura. / EFE

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